11 de setembro de 2011

Episódio 04 – Abdul & família em:

   

A Vida Como Ela Era...
     

Minha Filha, Meu Tesouro - Parte II 
   
Firenzi, séc. XV, que cidade fascinante. Sua arquitetura tão singular, suas catedrais e seus afrescos, a música, as artes liberais, as cores, a realidade parece testemunhar o alvorecer do Renascimento. Nesta cidade moderna e em franca transformação, Abdul Haseeb Muhammad Abn Abdulaziz, a cada dia descobre que educar seus filhos é uma tarefa um pouco mais complexa do que imaginava...

Cenário:
Passado alguns dias do fatídico debate sobre o futuro de Alima Sameena, Abdul Haseeb e sua família estão novamente reunidos em volta da mesa de jantar.


Alima Sameena   Papai, o que é Amaliyya?
Abdul   Amaliyya é uma das áreas da “jurisprudência islâmica”. Se refere às regras, normas em relação aos atos. As ações podem ser classificadas em fardh, o que é obrigatório; mustahabb, o que é recomendável; mubah, o que é permitido; makrooh, o que é desaconselhado e haraam, o que é proibido.
Alima Sameena   Bismillah!
Abdul   Por que estás me perguntando isso?
Alima Sameena   Porque, sim.
Abdul   Não estás ainda pensando em ser uma scholar, estás? Eu disse para você esquecer esta idéia.
Alima Sameena   Está bem, papai.
Abdul   Está bem? (confuso).
Alima Sameena   Sim, mamãe me disse para não discutir com você.
Abdul   É um bom conselho (sorriso orgulhoso).
Alima Sameena   Disse para eu me preocupar em aprender o árabe, a recitar o sagrado Corão e a juntar dinheiro; que quando eu crescer ela vai te convencer a me deixar ir para a escolinha de Fatima.
Abdul   (Olhar furioso, tom de voz elevado). Como pode me desafiar dessa forma?
Amineh Nadirah −  (desconcertada). Marido, acalme-se. Deixe-me te explicar.
Abdul   Então a senhora tem uma explicação para esta desobediência.
Amineh Nadirah −  Senhor meu marido, me escute. Não achas que seria útil para a educação de nossa filha ter um objetivo a longo prazo, mesmo que seja uma fantasia como ser uma scholar?
Abdul   (olhar confuso).
Amineh Nadirah  Almejar ir para uma Madrasa e guardar dinheiro para este fim, não seria de grande auxílio à educação de nossa filha? A ensinaria prudência para lidar com os recursos.
Bahiya Malika  Se tornará uma mulher mais econômica na fase adulta.
Amineh Nadirah  Sim, é claro. Além de ser um estímulo para o estudo do sagrado Corão.
Abdul   (pensativo, fica em silêncio por 30 seg.) Confesso que não tinha analisado esta questão por este ponto de vista... Está bem. Eu não me oponho que guarde dinheiro para ir para a Madrasa. No futuro poderá gastar este dinheiro com algo mais importante...
Alima Sameena   Ehhhhh! Allah (swt) é grande, al-Kabir, al-Karim.
Abdul   Mas tem uma condição. Isso tem que ficar em segredo.
Alima Sameena   Por que papai?
Abdul   Os bons mulçumanos querem se casar com moças que priorizem a família e que não tenham outras ambições.
Alima Sameena   Os homens querem se casar com mulheres que saibam dançar. (disse isso enquanto erguia os braços e ensaiava alguns passos de dança do ventre).
Abdul   O que é isso, minha filha!? (rubro de vergonha).
Alima Sameena   Dança do ventre, papai.
Abdul   Por favor não faça isso à mesa. Aliás, não faça isso em público.
Alima Sameena   Tá bem, papai.
Abdul   A propósito, como você pretende juntar dinheiro?
Alima Sameena   Sai correndo rumo ao seu quarto e retorna com um lenço e um baú.
Abdul   Alima, por favor peça licença antes de sair da mesa. Mas o que é isso?
Alima Sameena   É meu bauzinho. Foi Bahiya quem me deu. Aqui eu vou guardar todas as minhas economias.
Abdul   Está certo.
Alima Sameena   Aqui é um hijab que eu bordei para ser vendido na loja.
Abdul   Assim é que você pretende juntar dinheiro? Bordando?
Alima Sameena   É, papai.
Abdul   Me parece um bom plano. Mas... Filha... Está cheio de defeitos. Veja. Você precisa treinar um pouco mais.
Alima Sameena   Papai, compra pra mim. (colocou o lenço sobre a cabeça com olhar mendicante).
Abdul   Como? Comprar para você? Mas já é seu!
Alima Sameena   Não, é para ser vendido na loja.
Abdul   Mas não tem qualidade para ser vendido na loja...
Alima Sameena   Então papai, compra pra mim.
Abdul   Olha para suas esposas, estão rindo.
Abdul   Está bem. Toma 1 florim de cobre.
Alima Sameena   Custa 10.
Abdul   Dez florins? Dez florins? Um novo não vale mais do que quatro.
Alima Sameena   Então cinco.
Abdul   Cinco florins por um hijab que não vale mais do que quatro?
Alima Sameena   Então três.
Abdul   Dois e é a minha última oferta.
Alima Sameena   Tá bom. Só porque é pra você.
Amineh Nadirah  Como é que se diz Alima...
Alima Sameena   Obrigada, papai.
Abdul   De nada. (aparentado estar contrariado, quase um resmungo).
Alima Sameena   Pode colocar aqui no meu bauzinho.
Abdul   Tome.
Bahiya Malika –  Mudando de assunto, hoje o meu bebê mexeu o dia inteiro...
     

4 comentários:

dklautau disse...

Hilário! A escolinha da Fátima é genial!

Essas mulheres fazem mesmo a gente fazer cada coisa. Essa conversa de que "em grão em grão a galinha enche o papo" é verdade!

Essas cenas de decisão familiar na mesa das refeições é de uma realidade tangível. Uma família se identifica facilmente com essas descrições. Parabéns doutor.

A negociação entre pai e filha islâmicos é surpreendentemente afetiva e realista. Mais uma vez, obrigado pela pérola de texto.

Vais ficar cheio de pontos de experiência!!! Olha com o que vais usar!!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Diego,

Quando eu era criança fazia desenhos e tentava vender pros meus pais... Heheheh

Um grande abraço,

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

Parece conto de 1000 e 1 noites Hugão!
hahahahaha
Gostei mt dessa idéia!

Hugo Marcelo disse...

Obrigado Camila,

Fico feliz que tenha gostado.

Hugo Marcelo