22 de março de 2011

Carta de Eleonora para João Batista e Aisha



[Texto referente à sessão de 04/12/2010]


Firenze, primeiro dia do mês de novembro do Ano de Nosso Senhor de 1404


Meus preciosos Giovanni Battista e Aisha,
Falo estas palavras para este monge franciscano, confiando que sua pena possa desenhar para vocês um pouco disso que eu penso, que eu falo, que eu sinto. Não sei qual encantamento podem as palavras escritas, estas palavras sem corpo, sem calor e sem voz, palavras não-palavras em um pergaminho que se desfaz mais rápido do que nós mesmos retornamos ao pó ao morrer. Mas parece ser assim que as coisas estão se tornando. Parece que em nossas vidas a lembrança terá cada vez menos lugar, e a nossa mente será o estojo vazio desses pergaminhos enquanto estiverem ao alcance das mãos. Só posso esperar que o tempo seja generoso e não vença estas palavras pelo cansaço.
É o tempo que tem me ensinado muita coisa, o tempo nesses últimos meses em Florença. Giovannino, é o tempo em que eu não te trago mais junto ao corpo, sentindo teu coração bater quanto dou meu peito à tua boquinha. Mas eu sinto teu coração bater sempre, Nino, pois ele bate na batida do meu coração. É o tempo, Aisha, das coisas sem volta e das coisas que voltam, que nos faz caminhar para trás com o espírito mesmo quando caminhamos para frente com nossos passos. É o tempo que levou teu pai Klatus, guerreiro de muito valor, para a luta que honrará sua família para sempre, pois a chama da bravura ainda arde no teu jovem coração.
Não posso saber que caminhos terão adiante, pois aprendi que caminhos nascem como as pessoas. Giovanni, quando nasceste o mundo se tornou muito maior. Pude pela primeira vez ter um pequeno vislumbre do que é a Criação, a vida além das belas e terríveis ilusões da terra e da carne. A Criação é vida que se dá a luz todo o tempo, é sempre prenhe e sempre fértil. A Criação é como as ondas do mar, rebentando-se o tempo todo contra areia fina e rochedo forte. E o tempo vive de maré alta e maré baixa, refaz o caminho das ondas, levando algumas coisas antigas, deixando outras coisas em seu lugar. Do mesmo jeito, minhas palavras hão de encontrar vocês muitas vezes, quebrando suaves ou bravias, enquanto vocês singram suas vidas pela Criação. Esta é a minha pequena Arte marinha do tempo e da fortuna, ainda que no palco da terra mundana e no jardim da desventura florentina.
Estas ondas palavras memórias existem para que eu possa estar perto de vocês, por longe que eu esteja. Estou indo para longe, para um lugar ao qual vocês não devem me seguir, jamais! É para que suas trilhas não encontrem por descuido a trilha que eu sigo agora por dever, que eu quero estar perto, presente. Surpreendam-se sempre com os caminhos ao nascer, pois o mundo é eterna novidade, e tudo que seus olhos veem e seus ouvidos escutam é sempre novo, e não pode ser congelado num só pensamento.
Nino, lembra-te sempre de Cristo. Chamei-te Giovanni Batistta para que saibas que teu lugar é ao lado Dele, e não dos homens e suas guerras menores. És um benandanti, um empelicado, nascido para combater o mal pela força das armas e das Artes que a vida te reservar. Esteja do lado de Cristo e Aisha estará ao teu lado, pois vocês devem cuidar um do outro, enquanto a roda do mundo girar tantas vezes contra vocês. Aisha, deves pensar sempre na Senhora de Magdala, que viveu forte e livremente escolheu para seguir um Homem, e assim pode vê-Lo retornar dos mortos.
Tomem cuidado com os bosques. Há homens ferozes como lobos, de alma tumultuada e muitas vestes. Atentem aos gabrielitas e aqueles que estão ao seu lado, pois eles buscam negar o direito de homens e mulheres buscarem Deus pela revelação da Arte. Evitem os mortos-vivos que rondam lugares como San Lorenzo, até que muito mais tarde a maré mude e eles possam ser enfrentados. Mantenham-se longe do podestá e do bargello, mas se o destino os aproximar, usem de todas as Artes para que eles não conheçam seus corações e os aniquilem. Em Santíssima Anunziatta estarão entre seres com um pé nesse mundo e um pé alhures, mas eles devem a teu pai, Aisha, e talvez possam ajudar-te. As carmelitas e os franciscanos serão sempre amigos, até o momento em que deixarem de ser. Aprendam com eles, mas lembrem-se que no final haverá apenas um ao outro, as minhas palavras, Santa Maria Madalena, santa Maria Mãe de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo, que está voltando. E nunca, nunca tenham medo. O medo é como fechar os olhos para a Criação, e jamais poderá redimir seus passos passados. A redenção é uma roda que nos leva adiante. Por isso, não tenham medo de seus corpos, de seu espírito e de seus desejos, que são puramente vagas da Criação e podem navegá-los sempre para um pouco mais perto da verdade. Não tenham medo da morte e nem do Inferno, a ascensão à vida eterna talvez os aguarde, mas o medo é o caminho mais rápido para pavimentar o caminho às chamas da morte eterna.O Inferno eu vi, com meus olhos, e sei que ele é menor que a Criação e, portanto, menor que as nossas Artes e a Graça de Deus.
E mesmo que tudo o que eu digo para este pobre e assustado monge estiver errado, e nenhuma das minhas palavras possa dar-lhes acalento, ainda assim meu amor fica com vocês para todo o sempre.
Eleonora

[Imagem: detalhe de O Nascimento de Jesus (1302-1305), de Giotto di Bondone, Capilla de los Scrovegni, Pádua, Itália.]

3 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Ana,

Excelente postagem... Emocionante!

Parece real.

Hugo Marcelo

dklautau disse...

D. Ana,

Você já leu as cartas de Tolkien para seus filhos durante a Segunda Guerra Mundial? A carta de Eleonora para os seus recordou-me imediatamente de tais escritos.

Cheios de amor e significado, de esperança e considerações sobre a arte de viver e os perigos dessa vida.

Quisera eu escrever algo assim para minha pequena Diana, quando o tempo assim oferecer a oportunidade.

Obrigado pela primorosa escrita, cheia de beleza e respeito. Em nota particuar, a reflexão sobre a Criação, a virtude, o inferno e a fé é digna de um ensaio teológico. Ainda mais notando-se que é um carta de mãe para filhos.

Parabéns pela postagem. Me fez ficar muito contente com nosso jogo.

P.S. Vale os dois pontos!

Ana disse...

Queridos,
obrigada pela leitura carinhosa.

Nunca li as Letters, Diego. Espero um dia poder para para ler... o povo do Conselho Branco gostava muito delas.

Quem sou eu para fazer teologia... ehheheh
Dei uma lidinha na descrição dos videntes e da essência de Eleonora, e no Guardador de Rebanhos, do Caieiro.

Pensei no texto da carta tomando banho, embora eu tenha no final esquecido de escrever umas coisas - sobre Arturo e sobre a trupe de Paolo. Acho que a carta fez falta na última sessão, porque eleonora havia de fato deixado algo para João Batista antes de ir ao inferno.

E agora a esperança dela está ficando mesmo para trás das portas.