4 de junho de 2011

Ordem de Cristo

     
O cheiro do incenso impregnava o ambiente. Esse cheiro sempre foi curioso pra mim. Era como se aquela fumaça tivesse o poder de turvar a mente, como as ervas que os maometanos usam, deformando a percepção e traindo os sentidos. Porém, o incenso não era droga, era perfume, fragrância, um sutil estímulo para a realidade sensorial, como uma âncora diante da elevação espiritual das cerimônias da Igreja. O sentido do incenso é o oposto à da embriaguez infiel, porque não retira da realidade, mas lembra aos celebrantes de Cristo que ainda são matéria, mesmo que elevados próximos do sétimo céu nos ofícios sacros. 
  
E era assim naquele rito. Estava nervoso e ao mesmo tempo sereno. Excitado com a vida que me esperava, e ao mesmo tempo seguro que cumpria meu destino no mundo que Cristo desejara. Nada haveria de me separar dos votos que realizava naquele momento. O latim do sacerdote cumpria meticulosamente os passos do cerimonial. Na catedral de Lisboa, numa manhã de 1414, eu e mais cinco noviços participavam dos ritos públicos de ingresso na Ordem de Cristo. 

Estava com recém quinze anos. Naquele ano fazia cem anos da extinção dos Templários, ordem que funestamente profanou os votos das ordens monásticas, se fazendo de caricaturas daquilo que deveriam ser. Pensar que São Bernardo de Claraval escrevera um elogia a essa ordem, e que escrevera ele mesmo uma primeira regra para os monges cavaleiros transformava meu repúdio aos templários ainda maior. Quanto maior a esperança, mais retumbante é o fracasso. O orgulho é sempre um precipício implacável para a escalada da confiança de uma missão santa. 

Meus confrades, jovens como eu, vestiam a roupa herdada, entre inúmeras outras coisas, da tradição templária. A cruz vermelha sobre a túnica branca nós vestíamos, e repetimos em uníssono o lema da Ordem de Cristo, que herdara os bens, construções, conhecimentos e tradições dos templários em Portugal. 

Meus pais estavam na catedral de Lisboa. Nossas terras eram próximas da cidade, e meus irmãos e irmãs estavam comigo nesse momento. Embora um de meus irmãos já fosse sacerdote, uma irmã freira carmelita, eu era o primeiro a me dedicar a uma ordem guerreira. Era uma responsabilidade e uma honra. Apenas aqueles que conseguiam passar em duras provas, físicas e espirituais, conseguiam continuar os votos. Meu pai me olhava com orgulho e minha mãe, com olhos marejados, tinha receio e expectativa de ter um filho numa ordem tão renomada e considerada pelo rei e pela Igreja. 

Ao término dos ritos, tive absoluta certeza que Deus me escolhera para realizar as tarefas mais difíceis. A honra era diretamente ligada ao sacrifício. A missão da Ordem de Cristo era manter a ordem de Portugal, pelo Rei e pela fé. As batalhas nas terras dos maometanos eram duras, e as navegações muitas vezes eram fatais, com inovações ainda não confirmadas e os perigos tão atrozes do mar. 

Nessas memórias, ainda não tinha consciência do tamanho da missão que Cristo que convocaria. Na época, o ingresso na Ordem de Cristo era tão miraculoso e sagrado que pensava que nada poderia lhe superar. Grande engano. Ainda na saída da capela, da nave central da catedral de Lisboa, um vislumbre dos milagres e assombros que nenhum mestre da Ordem adormecido poderia suportar. Vi um cavaleiro etéreo, com seu cavalo e sua lança, se aproximando de mim em cavalgada lancinante no interior do claustro, assim que adentrei com a procissão junto aos outros noviços. 

Empurrei a todos e fiquei diante do cavaleiro, imaginando ser um artifício do demônio, conforme havíamos estudado. Para minha surpresa, o fantasma sumiu e fui repreendido porque ninguém vira nada. Após alguns interrogatórios do Santo Ofício, dias depois, fui levado a estudar demonologia, porque era óbvio que as aparições tinham me escolhido como adversário, e Deus tinha me agraciado com o dom da visão dos espíritos. Seria treinado como exorcista. 

Anos depois, entendi o que era aquela aparição, e pude ter um conhecimento sobre espíritos e demônios que nenhum professor de exorcismo dentre os adormecidos poderia me conceder...
     

4 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Que prelúdio bacana, adorei o dispertar de Dom Galvão.
Gostei muito o debate que vc propós sobre o incenso.

Espero que tenha continuação.

Abs,

Hugo Marcelo

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Já ia me esquecendo...
Dois pontos!!
Hehehe

Hugo Marcelo

dklautau disse...

Fala dr.
Parabéns pela sessão inaugural. Mandou muito bem!
Teremos novas estórias de D. Galvão. Uma das minhas inspirações foi aquele filme que vimos O Ritual, com Anthony Hopkins, sobre exorcismo.
Abs!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Obrigado.
Fico feliz que tenha gostado do jogo.
A próxima sessão será melhor...
O filme "O Ritual" foi excelente!! Grande inspiração.

Um grande abraço,

Hugo Marcelo