11 de junho de 2011

Adeus Florença

  
“Tema quem não teme a Allah”, costumava dizer meu pai. Se tivesse tomado para si este sábio conselho, provavelmente ainda estaria vivo. Um homem honrado, justo e caridoso, que pereceu em uma falsa jihad. Um paradoxo quase inexplicável. Um fim indigno de sua, até então, reta conduta. Que Allah (swt) tenha piedade de sua alma, que descanse em paz até o Yawm al-Qiyamah [1] e que seja acolhido no Jannah [2].

Embora seus atos sejam injustificáveis, o assassinato de minha mãe na mesquita de Florença abalou sua fé, não em Allah (swt), mas em si mesmo [3]. Consumido pela culpa se viu obrigado a buscar uma “reparação”. Ao ouvir o discurso inflamado do xeque Yasir, não teve dúvidas, uniu-se à milícia para lutar contra os supostos inimigos da comunidade islâmica de Florença. A linha divisória entre justiça e vingança é muito tênue. Ha que se ter muito cuidado antes de incitar o povo à guerra. Resultado, sob a sombra dos pinheiros do cemitério florentino, descansam os mais fortes e corajosos mulçumanos da Toscana.
Culpar o xeque Yasir pelas atitudes de meu pai seria desonesto de minha parte. Pode um homem culpar as nuvens pela ausência de chuva? Deve o peixe culpar o anzol pelo seu infortúnio? Se meu pai tivesse sido um pouco mais prudente, talvez percebesse que vivo seria mais útil à comunidade e a própria causa. Mas agora isso tem pouco importância.
Já faz algumas luas que enterrei meu pai, ao seu lado, minha mãe. Irmãos, não tenho. Família, no oriente. Ficar em Florença seria uma carga que não poderia, ou melhor, não desejo suportar.
Meus pais tiveram uma morte sem sentido. Os cristãos afirmam que tudo não passou de uma armação do próprio shaitan para destruir Florença. Opinião compartilhada por alguns honoráveis islâmicos, como o senhor Abdul Haseeb. Difícil acreditar que Florença seja tão importante para as hordas infernais, mas se assim o for, mais uma razão para abandonar esta cidade. Estou cansado de procurar entender o significado da vida e porque Allah permitiu que ficasse órfão aos 15 anos de idade.
Como discernir a imperscrutável vontade de Allah? Isso é impossível, mas o fato é que estou completamente livre para ir embora. Se esta não for a vontade de Allah, então que se manifeste.
Venezia é uma importante rota comercial para o oriente. Lá poderei ter maior contato com “minha gente” e lutar para realizar meu sonho de infância: tornar-me capitão de um navio e viajar, conhecer o mundo transportando especiarias das índias, talvez até de Constantinopla, para toda a Andaluzia. Seguir os passos de meu tio-avô, contramestre da marinha mercante do império otomano.
Que Allah proteja Florença e conforte suas viúvas e órfãos. Quanto a mim: 



Navigare necesse; vivere non est necesse”.


  
_________________________
[1] "Dia da ressurreição", o dia do julgamento final. 
[2] Paraíso islâmico.
[3] O conflito entre judeus e muçulmanos de Florença está documentado na Sessão de Jogo 30 de outubro de 2010 - 31 de outubro de 1404.


2 comentários:

dklautau disse...

Dr. Hugo.

Um prelúdio mais pessoal e reflexivo para um personagem mais combatente e físico.

Boa mistura. Esperamos muito do jovem muçulmano. Vamos ver como se transformará no bravo batini discípulo de Abdul.

Abs

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Diego,

Esse é o ponto, acho que você entendeu meu personagem.
Quem é mais emotivo e menos racinal é que tende a ser mais "guerreiro", como se fizesse a escolha pelo campo de batalha ao invés dos debates, dos conflitos no "mundo das idéias".

O Dilawar é o cara!!! Hehehe...

Hugo Marcelo