16 de maio de 2010

Prelúdio de Eleonora/Pietro


Nossa memória é apenas uma de muitas máscaras que usamos, costuma dizer meu pai, Paolo. Podemos costurar enfeites, abrir buracos, pendurar coisas e pintar cores, mas ainda assim permanece sempre algo de tragédia ou de comédia, que não podemos mudar. E é só em nosso próprio rosto que ela serve com perfeição.

Minha primeira máscara foi da fuligem do vilarejo em chamas, pelo qual eu caminhava junto com os ratos em fuga, pisando com eles nas brasas. Foi esse o rosto que Paolo viu, antes de ser meu pai. Ele me contou que antes das chamas a cidade já havia sido tragada pela peste, e que quis me levar de lá por pensar que sua mulher Bianca se alegraria com uma menina, já que perdera suas próprias filhas todas para a fome ou doença. Paolo me trouxe a benção de uma nova família, uma mãe e quatro irmãos. Por debaixo da máscara do corpo, castigada por muitos partos, via-se no fundo dos olhos negros de minha nova mãe sua juventude gasta. E esses olhos me fitaram com um misto de rancor e alívio ao adivinhar as verdadeiras intenções de meu novo pai Paolo, de deitar-se comigo todas as noites a partir de então. Eu nem contava sete primaveras quando comecei a aprender as dores e os prazeres do amor. Pela manhã eu ajudava minha mãe com as tarefas e me juntava aos exercícios de meu pai e irmãos. Para me proibir a eles, meu pai Paolo decidiu tratar-me como menino, e assim virei Pietro, membro da trupe da Meravigliosa Famiglia di Paolo.

Minha família era a trupe. Viajávamos pelas terras levando arte e divertimento, encantando os nobres e fazendo os vilões se esqueceram da peste. O mundo maravilhoso que criávamos do alto da carroça era menos assombroso que o mundo em que todos viviam, como se as aventuras amorosas fossem um suspiro de descanso. Nos palcos, encarnando aqueles personagens que todos já conheciam, Arlequim, Lelio, o Doutor, a Colombina, vivíamos casos de amor e bravura, traições e tentações, risadas e medos, em um misto de cores, risos e música. Pelos caminhos, eu podia ver às vezes além da névoa a morte guiando seu cortejo de condenados, em uma dança macabra. Outras vezes eram os sinos das igrejas repicando as horas que pareciam revirar minhas entranhas, fazendo com que o rio do tempo acelerasse ou quase parasse.

Quando chegamos à Florença meu ventre já estava inchando do primeiro filho. Minha mãe quis terminar com tudo mas meu pai mandou deixar a criança vingar. Florença me despertava para memórias fugidias, especialmente suas igrejas repletas de artesãos, criando imagens para o mundo que amanhecia. As representações de Maria, em especial, chamavam a minha atenção, seu rosto inclinado, seu longo manto, suas formas ovais. Mas ao mesmo tempo, pensava eu, o que uma virgem saberia sobre a vida? Mas havia uma outra mulher, que aparecia também, de joelhos diante do martírio de Nosso Senhor na cruz. Cabelos ruivos e cacheados como o meu escondendo toda a força de seu sofrimento. Ela não era tão boa e pura como a Virgem Santa, mas parecia ser capaz de um amor profundo, capaz de não apenas perdoar os pecados de minha família, mas de compreendê-los. Antes de dormir eu rezava para a Donna de Magdala proteger a mim e à minha criança e ela aparecia em meus sonhos, como se surgisse das profundezas do oceano, dizendo que meu filho poderia ter um grande destino.

As dores me acordaram de madrugada e minha alma foi tomada por uma força estranha, como um chamado. Desatrelei a mula da carroça e percorri Florença enevoada rumo sul. Os prédios e fontes públicas pareciam brilhantes e fluidos, na Penumbra de antes de amanhecer. Nem o frio, nem os gritos da Ponte Vecchia, nem as dores pareciam me perturbar naquele estranho sonho acordado. Apeei numa pequena estrebaria deserta e lá encontrei Magdalena à minha espera, para ser minha parteira e me abençoar. E ela trouxe comigo ao mundo o pequeno João Batista. Ele nasceu empelicado, como nascem os benandanti, destinados a combater em sonhos os monstros e preservar as colheitas.

Magdalena nunca mais me deixou sozinha. Posso vê-la nas gotas de chuva e do leite que João Batista toma de mim. Sinto seu cheiro nas minhas menarcas. Ela surge em sonhos e visões, e seus cabelos são como as ondas do mar, capazes de revelar segredos primordiais e lavar feridas antigas. Quando fazemos amor nos sonhos, às vezes eu me torno Pietro por inteiro, em outras somos como parte de uma irmandade secreta de mulheres. Ela me ensinou sobre o cosmos fictio e a manipular os sentidos do mundo pelos sentidos do corpo. Para ela fiz uma máscara de estrela-do-mar.

Um novo guardião também surgiu, um homem escuro, de rosto sábio, barba retorcida e um cheiro apimentado. Sua pele tinha um brilho acetonado e sua voz ressoava como as cordas de um estranho instrumento. Ramadeli era o seu nome e ele era um Sahajiya. Suavemente encontrou-me com Paolo, e entoou uma canção monótona e penetrante sobre a roda que une o atormentador e a vítima em um pacto de amor e dor. Suas palavras soavam estrangeiras e de uma verdade inatacável. Paolo o ouviu atentamente e despediu-se para sempre do meu corpo com um beijo entre minhas pernas. Jamais se lembrou daquela tarde e nunca mais me procurou. Ramadeli, por sua vez, instruiu-me um pouco acerca dos Videntes de Cronos, um grupo de Guardiães dos Magi, com o dever de guiá-los e uni-los para um futuro sombrio que apenas nós podemos ver com alguma clareza. Falou-me para permancer na cidade, que a jornada do meu destino se iniciava por Florença. Antes de partir, deixou-me com um narguilé, capaz de alcançá-lo em qualquer lugar.

Dois anos se passaram desde o nascimento de João Batista. Entre as performances de trupe e as pequenas descobertas da vida Desperta. No alvorecer da primavera do ano de Nosso Senhor de 1404 um sonho terrível da morte do espírito de um menino das vinículas e um estranho chamado de Magdalena para ajudar uma jovem nobre trançariam para sempre meu destino ao dos magi de Santa Croce.

6 comentários:

Kabral disse...

Que prelúdio sinistro. E ousado. E MUITO BOM.

Diego Genu Klautau disse...

Grande Ana. Belíssima escritura. Digno do tempo que esperamos.
Gostei das reflexões estéticas, filosóficas e teológicas.
Também a descrição íntima e sensível foi muito notável.
Pontos de experiência lhe aguardam!

Ana disse...

*barulho de máquina registradora* huahauhauahua

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Ana,

Belo prelúdio...

Hugo Marcelo

Fabi Dias disse...

Muito bom, Ana!

Abraços

Camila Thiemy Dias Numazawa disse...

Prelúdio muito bom mesmo Ana!
Inspirador!
=)