5 de dezembro de 2010

Nossa primeira Obra e a primeira Visão do Inferno

(em referência à sessão de jogo de 06/06/2010)
    
Após o fim de nossas aventuras com os feéricos, parecia que todos precisávamos de um pouco de tranquilidade. Alguma coisa entre as criações e novidades pujantes e as perdas profundas. Este equilíbrio viria de nossas próprias vidas como homens e mulheres “florentinos”, ainda que apenas a dama Aurora Medici e o cavalheiro Arturo pertencessem de fato à cidade. Mas não apenas eles puderam entregar-se sem hesitação ao dia a dia. O mouro Abdul também parecia ter suas raízes já bem plantadas na cidade, com sua estranha família, em que as esposas dividiam o marido sem matar uma à outra, e seus negócios. O grego sombrio, Heráclito, também tinha seus negócios e interesses em livros, esperando que com eles pudesse aprender alguma coisa.

Eu tinha João Batista, crescendo a olhos vistos, firmando seus passos e aprendendo palavras novas todos os dias. Os franciscanos de Santa Croce haviam lhe dado alguns brinquedos de madeira. E a pequena Aisha, filha do guerreiro feérico Klatus, que pouco sabia sobre sua origem. Aisha era geniosa, independente nos seus cinco anos, e já tinha aprendido alguma coisa de costura na casa de seu pai. Meus filhos. Eu, adotada havia tantos anos pela família de Paolo, agora era quem adotava um destino compartilhado e queria de todo o coração que tivessem uma existência mais doce do que fora a minha, se Deus permitisse. Aisha e João Batista aprenderiam a se amar e a cuidar um do outro, protegendo-se do mundo até que o destino também os levasse a rumos imprevistos. Por isso, deveriam crescer fortes e espertos.
            
Ainda assim, naqueles meses entre o verão e o outono eu dormia e acordava inquieta no catre da cela franciscana, sentindo minhas coxas molhadas do meu desejo, sedenta da Arte. A trupe se fora, o mundo do teatro se distanciava de mim e eu me sentia só. Os outros Despertos iam e vinham, conforme tivessem assuntos a resolver, mas eu me tornara responsável pelos ritos que deveriam manter as Bençãos da catedral fluindo. Mas os outros pareciam desconfortáveis, e desconfiados de mim. A primeira experiência foi um desastre. Quem era eu, moça do povo, sem berço nem pátria, mãe de duas crianças sem pai, para dizer aos nobres e doutos o que fazer? E eles também pareciam não saber de nada. A festa que eu pensei ser capaz de inebriá-los e vencer as diferenças pelo êxtase não funcionou. Baco riu de mim do Olimpo; os duendes, das matas ao redor.
   
Pensando sobre isso e rezando para Madalena, cheguei à conclusão de que as pessoas se uniam ou em torno de um líder, como os Apóstolos, ou de uma tarefa, como nós mesmos já havíamos feito. Então, que o melhor ritual seria construir alguma coisa em conjunto, alguma coisa que pudesse contar as histórias dos nossos feitos. Aurora refinava as Bençãos, era preciso algo para guardá-la. Propuz a todos que nos uníssemos para produzir uma Obra de barro, do material da Terra de Florença, do caos das lembranças ao mundo das coisas sólidas; moldada pelas Águas que cortavam a cidade, a natureza sedutora e delicada; temperada pelo Fogo dinâmico e feroz enquanto girava pelo Ar sussurante que unia nossos gestos na mesma criação e esforço de autoconhecimento.

Foi a magia mais poderosa que operamos até então. Todos se uniram, a partir de suas Esferas, de seus saberes, de seus pontos cardeais. Cada essência misturando-se na quintessência. Um vaso belo e poderoso surgia, com desenhos como os dos vasos gregos que eu vira vender nos mercados, nos quais víamos a nós mesmos em Tempos muito diferentes. E víamos mais do que poderíamos compreender. A Roda. A Trama. A Trindade. O Gozo. A Dor.

Como um som de trombetas de guerra se despedaçando, ouvimos um urro aterrador. Jamais um som desses reverberou em Santa Croce. Um homem de olhos ardentes emergia do vaso. Pela primeira vez em cem anos, Florença recebia Dante Alighieri, seu filho mais famoso. Eu não sabia quem era aquele homem de aspecto demoníaco, nem sabia que ele percorrera uma jornada por todo o Inferno. Mas lá estava ele, avisando-nos da maldição que se abateria sobre Florença. Que três feras, a Onça, o Leão e a Loba, sairiam do inferno para destruir a cidade que o expulsara.

Nosso sangue gelou, como se a nossa alma estivesse em risco apenas pela consciência daquele mal que viria. Olhei em volta para meus companheiros, ainda com sua magia empenhada na construção do ritual. Minha magia também estava, assim como a luz que me movia. E se tudo havia conduzido para aquela mensagem vinda do Inferno, avisando contra a eterna Danação, para lá também eu me conduzia. Antes que pudesse gritar, senti meu corpo arder em chamas, na mais absoluta agonia e escuridão. Tive a vaga sensação de meu corpo batendo no chão antes de abrir os olhos e pela primeira vez ver o Inferno de Dante.
 

3 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Ana,

Gostei muito deste seu texto. Vc colocou de forma literária como Eleonora/Pietro se vê em Florença, na Cabala e como ela/ele vê os companheiros de cabala. Muito legal!!!

Hugo Marcelo

Ana disse...

É o perxxxxxxpectivismo rpgístico. Botando viveiros de castro no chinelo. ;)
Quero ver se entre hoje e amanhã escrevo sobre a estada de Eleonora no inferno.

Vou sentir saudades de vcs e do jogo até 2011 :(

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Ana,

Também sentirei saudades!
Aguardo seu texto...

Abs,

Hugo Marcelo