1 de fevereiro de 2011

Svetlana Olen ¥ Cap. 11 – Entre árvores e cogumelos

¥ Svetlana Olen ¥ 

Sentia os dias carregados em Kupala Alka. O corre corre no Cray e as preocupações ficavam cada vez mais intensos. A ajuda que era conseguida por outros magis, eram para auxiliar nos rituais entre os Grandes Magis. Não sabia bem o certo, mas deveríamos nos preparar o máximo para nos proteger.
Sra Ausra mais uma vez solicitou minha ajuda. Disse que era necessário irmos a um lugar, a fim de nos interarmos melhor com a situação que estava decorrendo em todo o Grão-Ducado da Lituânia. Pegamos um dos caminhos do outro lado do rio após termos atravessado sobre uma pequena barca. O Rio Bartuva estava calma, e nos permitiu cruzá-lo com certa agilidade.
Ao passar entre os grandes pinheiros que se localizavam no leito do rio, o clima foi ficando mais frio. Uma espécie de névoa foi se adensando entre o mato e nós mesmas. O cheiro foi ficando mais curioso, lembrando umidade de uma chuva densa de outono com o fresco de flores na primavera.



Passamos por córregos estreitos e começamos a subir nos pés de pequenos morros. Já podia escutar a água que deslizava entre as pedras e os limos, enquanto as árvores começavam a comunicar entre si.
Senhora Ausra, por vezes, parecia um pouco perdida. Freqüentemente parava e tocava em troncos de árvores estacionados a milhares de anos na terra e cuspia forte sobre a terra. Depois de certo tempo, ela levantou o seu rosto, fungando o ar. Seguiu o caminho de anise¹ sobre o chão.
Ao segui-la comecei a escutar bem baixinho cânticos doces que suingavam com o dançar do vento em nossos cabelos. Ao nos aproximamos, havia uma clareira e pude observar um homem dançando com roupas que, ao me lembrar de certos quadros, recordavam aquelas do pai de meu pai. Senhora Ausra parecia não se importar com a cena, tanto, que passou agachada com a mão na terra, preocupada para não perder o sinal da trilha. Continuei, contudo olhando ao passar perto dele. Pude então notar pequenas criaturas cintilantes com pequenas asas o fazendo rodar, rodar e rodar, puxando suas roupas e fazendo dançá-lo em círculo. No chão, havia uma espécie de roda com cogumelos margeando os seus passos do senhor, que cheirava forte a trufa, mas nem de longe parecia uma.

Senhora Ausra me chamou, pois havia atrasado o passo e ficando longe dela. Tive que correr até chegar até ela. Ao me aproximar ela falou: “Chegamos”. Para mim, parecia o mesmo lugar. Não havia nada de diferente. Foi então que o por sua mão entre duas árvores que se cruzavam, ela desaparecia pouco a pouco. Antes de desaparecer ela prosseguiu: “Siga-me, mas antes, lambuze-se com isto”, jogando um vidro com uma espécie de líquido dentro.
Abri e um grande aroma tomou minha narina e me fez parecer mais leve. Distribuí-lo em meu corpo e passei pelo portal. Ao chegar do outro lado, havia seres ainda mais curiosos do que no dia de meu despertar. Criaturas gigantescas, outras menores que um dedal. Todas juntas trafegando pela pequena cidade encantada. Folhas e tijolos se enramavam formando edificações majestosas, sendo ao mesmo tempo cintilante e transparente. Fomos seguindo o caminho das gramas douradas até uma grande porta. Ela automaticamente se abriu e fazendo surgir uma monstruosa árvore. Ao circundá-la encontramos uma escada que nos levou até o topo do centro.
Lá, havia uma mulher, ao menos aparentava ser uma. Ao se virar com seu vestido leve e esvoaçante, pude contemplar sua tamanha beleza. Tinha cabelos como espiga de milho no verão quente de Kupala Alka e possuía um cajado que vivia brilhando ao menor de seu movimento.

- “Cara Rainha de Avalon, viemos porque necessito saber de sua visão!” Exclamou senhora Ausra.
-“Já faz tempo que fui eu mesma pedir uma ajuda a vocês. No meu reino, um serviço prestado, seja ele bom ou mal, vale sempre um outro de retorno”.
A rainha virou-se e ao queimar folhas secas que havia em uma tigela transparente ao lado de outra feita com um material lembrando a osso, na fumaça veio às respostas que ela queria.
-“Apesar de eu ser contra isso, e sempre lutar pela pacificação dos povos, você mesmo pode perceber que teremos momentos negros no futuro próximo. Não há nada que eu possa fazer. A não ser esperar...”.
Sra Ausra e a Rainha ainda analisavam a fumaça congelada no ar. Havia sangue, lutas, espadas, arcos, fogo, e morte, muita morte simbolizada naquele “quadro” congelado.
Freia apareceu por de trás de mim. Ela olhava tudo em volta dizendo: “Minhas Valquírias e eu teremos muito que fazer”. Ficava circundando e olhando a figura que havia sido criada por cinza e gelo. Sentia o cheiro e com malicia, sorria. Não parecia inquieta como as outras duas estavam. “Estarei em um bom tempo ausente, mas retornarei a você sempre que possível. Seja breve e sábia. Observe e absorveras.”
Sra Ausra me chamou e por fim, me apresentou a Rainha. “Vamos, faça reverencia. Ela é uma pessoa de grande sabedoria e visão. Mesmo nós não conseguimos ver tão claramente e distantemente o que devemos acontecerá e como devemos proceder”.  Ela me olhou e estendendo a mão, me ofereceu um bracelete.
- “Obrigada Rainha” Disse com voz baixa sem entender o porquê do presente.
-“Será ela a ir e espalhar a noticia que você necessita Ausra. Ela precisa ir e você sabe”.
Senhora Ausra me olhou com lágrimas nos olhos balançando a cabeça. “Sei. E irá. Preciso somente fazer mais uma coisa antes que parta”.
-“Certo. É verdade, mas terá que deixá-la ir. Você sabe, ela ainda há de crescer. Não se preocupe, embora haja um momento morte nessa passagem de seu ciclo, ela renascerá de outra forma, mais madura e sábia”.
Não ousei perguntar nada naquele momento. Até porque nem ao menos estava entendendo o que acontecia ao meu redor. Eram diversas criaturas, cheiros novos, lugar fascinante... que nunca havia visto me enchendo os olhos. Apesar destas atrações e distrações, algo em mim dizia que havíamos passado mais tempo do que deveríamos.
Senhora Ausra e eu seguimos o mesmo caminho que fizemos para chegar até o portal. Estava sim deslumbrada com tudo aquilo, mas uma tristeza tomou conta de mim, afinal haveria de partir não só deste local, mas para um destino que nem mesmo sabia onde e quando.
Ao passar novamente pelo circulo, próximo ao homem, senhora Ausra, que estava irritada, aproximou e disse: “Ora essa, agora basta meninas! Já estão aqui a mais tempo do que esse pobre homem poderia suportar. Não se cansam? Daqui a pouco, haverá coisas muito mais importantes a fazer. Deixe esse homem fechar seu ciclo!”.
O senhor lá dentro nem olhava para nós. Apenas continuava a dançar. Contudo, as pequenas criaturas observavam com bastante atenção, mas não deixavam de rir e de puxá-lo.
Ela ficou ainda mais irritada com a música e com as risadas agudas que aquelas criaturinhas faziam, que então profanou umas palavras no ar, e puxou o senhor pela mão com um gesto brusco. Como em uma cena lenta, fui vendo a mão dele virar ossos ao sair da periferia dos cogumelos, bem como todo a extensão de seu corpo a medida que Sra. Ausra o puxava.
- “Tome cuidado com essas crianças Svetlana. Aparentam ser inocente, mas são mesmo irresponsáveis! E vocês suas pestinhas, a partir de hoje, selecionem de forma correta quem vai fazer parte desta brincadeira de vocês!”.
As criaturas se calaram somente por um breve momento. Depois elas saíram, aumentando de tamanho, outras vivaram pássaros iluminados, mas mesmo assim continuaram a dançar dentro e fora do círculo a espera um novo acompanhante.


¹Anis.

8 comentários:

Camila Numa disse...

Pessoal, o tamanho desta letra está pequeno demais?
Estou usando a fonte número 9.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Quer que eu aumente o tamanho da letra?

Hugo Marcelo

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Gostei muito deste texto, vc está se aprofundando no universo das fadas...

Por um momento vc me fez lembrar "Alice no País das Maravilhas"... Hehehehe

Hugo Marcelo

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Muito interessante quando eu fui no livro "Símbolos de Mircea Eliade"e lí o significado de :

CÍRCULO - Simboliza a alma e o Si-Mesmo, encontrando-se vinculado ao simbolismo da mandala e da eternidade posto que é o Alfa e o Þmega, o início e o fim da vida humana, é a uroboros e o símbolo da meta a ser alcançada, a conjunctio, a união dos opostos na psique. Os círculos mágicos costumam funcionar como um temenos, um território pertencente a Deus, um espaço delimitado, um lugar redondo, reservado para um propósito arquetípico e numinoso que é utilizado para concentrar o que está dentro e excluir o que está fora. É a imagem símbolo de uma realidade psíquica interior do homem. Para o Mestre Eckhart, Deus é "uma esfera espiritual infinita, cujo centro e circunferência estão em toda parte".

COGUMELO - Era considerado como sendo um filtro do amor, além de simbolizar a longevidade.

Interessante...

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

hahahahahahaa
Só vc mesmo Hugão!
Em relação as letras, eu n sei se n dá dor de cabeça. O que vc acha? Acha que está pequena? Um amigo do meu trabalho falou que está.
Eu n sei.

Ei Hugão, tive que falar algo sobre fadas já que na minha planilha estava 1 bolinha em conhecimento feérico.

Tô tentando justificar o máximo minhas pontuações nas planilhas. Assim acaba que qd olho pra ela, sei qual estória devo inventar!

hehehehe
=*

Camila Numa disse...

Poxa Hugão, es uma eciclopédia!
hehehehehehe
Eu tirei essa lenda de um livro meu sobre fadas etc.
Bem interessante. Qd voltar pra Belém, certeza que eu trago ele.
Estava atrás de uma estória que pudesse encaixá-lo!
=)
=*

dklautau disse...

A maravilhosa terra das fadas.
Fadas pequenas e grandes.
A descrição da rainha foi esplêndida. Não pude evitar de me lembrar de seu primeiro contato com as fadas.

Creio que as fadas pequenas e inconvenientes sejam noockers ou boogans meio atrapalhados!

Svtelana está cada vez mais preparada para Florença!

Vale dois pontos.

Camila Numa disse...

O Diego sabe mesmo como inspirar seus jogadores!
Melhor mestre EVER!
;)