31 de janeiro de 2011

Svetlana Olen ¥ Cap. 10 – A primeira evolução

¥ Svetlana Olen ¥ 

Ao chegar a casa, me deitei. Meu pai percebeu o quanto aquele evento havia me perturbado. Não havia choro em mim, mas um grande vazio a procura de entendimento. Naquela hora, era tempo de mais uma vez recorrer a Ela.
Ao me trancar no quarto, espalhar pétalas de flores ao meu redor, fazendo um círculo no chão, totalmente desnuda, comecei riscar meu corpo com carvão, desenhando runas e a sussurrar o nome Dela.

O odor que me embriagava fez perceber, ao abrir os olhos, que lá estava ela. Ainda mais linda, contudo com aquele mesmo olhar frio de tempos de nevasca. Ela me levou a um passeio. Ao caminhar por dentre os lugares que ela escolhia, observava seus cabelos balançarem sutilmente com o ar e sentia-me extasiada com a maciez de sua pele. Ao virar meu rosto para frente, me deparei em outro lugar.

Havia somente uma porta meio abobadada em madeira de cor bem escura, aparentando ser velha pelas ranhuras presentes, já esbranquiçadas. Contornando esta entrada, havia um arco em pedra fazendo-lhe parecer ruína. Era possível observar pelas laterais, cujo não havia proteção alguma, um enorme lago negro e uma ilha em seu centro, sem nada, somente terra.

Freia mandou-me abrir a porta e entrar. Ao segurar na maçaneta, ela girou sozinha e subitamente se abriu. Olhei para trás e ela, com um sinal da mão, me mandou prosseguir sobre a água. Ao pisar no lago, percebi que não afundava, apesar de ver reflexos de peixes dourados, sendo incapaz de calcular a sua profundidade. Segui. E ao chegar à ilha, sentei na terra tão escura quanto o lago. Ela então continuava a me olhar em pé na frente da porta, e mesmo sem movimentar seus lábios, estava falando comigo.
- “Sinta, sinta...”

Ao tocar na água, minha mão foi puxada rapidamente para dentro dela, sendo engolida e tragada por uma espécie de planta aquática. A água era fria e negra, enquanto a brancura de meu corpo reluzia a pouca luz daquela noite. Era difícil de lutar, de me debater. Era muito mais forte do que eu, muito mais potente do que poderia sonhar em revidar...
Pensei em tudo aquilo que perderia, em tudo que faltaria concluir, lembrei de meu pai, de Sra Ausra, das minhas irmãs, de toda a vida que estava perdendo...
Sentia meu organismo pouco a pouco falecendo. Minha pele escorregava pela água e apesar de estar morrendo, minha alma procurava não mais lutar. Era tudo tão negro e frio...
Quando a luz acima de minha cabeça desaparecia, devido estar cada vez mais fundo, um dos peixes dourado se aproximou. Fixou seus glóbulos nos meus olhos e seguia-me como uma folha quando caí no córrego de um rio.
“Um simples peixe dourado, vivendo. Como pode ter tamanha tranqüilidade com todo esse frio e essa enorme escuridão?”. Aquele peixe dourado então, começou a pegar fogo. Suas escamas começaram a brilhar ainda mais. E de repente, ele ainda me fixando, sumiu. Sem entender o porquê, isto me fez lutar contra aquele sentimento de perda e franqueza dentro de mim. A planta que já havia tomado todo o meu corpo, fazendo-me parecer a uma lagartixa em seu casulo, começou a abraçar-me ainda mais. Ao profanar meus cantos sob a água, ao invés de me puxar e me apertar, ela começou a fazer movimentos com os quais eu ordenava. Como que com um disco sob meus pés, ela me levou até a superfície.
Intuí em fim, que tinha ultrapassado um grande obstáculo que estava me impedindo de prosseguir meu ciclo. Vi que poderia ser capaz de ter total controle sobre a dádiva que me havia sido concedida. Que poderia enfim ser por completa o que havia destinado.
Ao olhar para ela, Freia veio até a mim e disse:
- “Já era hora minha menina. Você já havia adquirido o mínimo conhecimento necessário para poder utilizar o que há em você. Aos poucos serás tão sábia quanto às outras. Mas deixe seu instinto lhe guiar e compreenderás o sentido e a maneira de fazer sem medo”.
Por um momento o Velho Alvo me passou pela cabeça, e me entristecendo de certa forma, já que ao saber dos poderes que tenho e que haverei, não pude mudar o seu destino, nem ao menos pude tentar...
Ela se agachou no chão e desenhou um círculo, e mais outro, e mais outro, fazendo correntes. O último, ela deixou em forma de “C”.
- “Svetlana, procure entender. Antes mesmo de seu ser existir, os nossos Deuses criaram outros e que já estiveram aqui sobre o olhar de Gaia. Todos esses nossos ancestrais já participaram da corrente da vida. Dailius ficou feliz em acorrentar com a sua, mesmo que em um breve momento. Mas se você observar, seu ciclo ainda não foi concluído. E você deve prosseguir”.
E seguir...

5 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Gostei muito da sua postagem... Bem verbena...

Quem é "Dailius"? Alguma divindade nórdiga?

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

ahaahahahaha
Dailius era o Velho Algo.
;)

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Quem é o "Velho Algo"?

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

Ops. Velho Alvo.
Ele é o homem da primeira vez da Svetlana (só que usando magia para parecer mais jovem no cap 4 - eclipse), como também o mesmo do ritual no cap 6 (iniciação).
Ele foi quem morreu no cap 9.
=)
São mts personagens que até dá pra esquecer ou confundir!
hehehehehehe
Espero ter tirado as dúvidas Hugão!
=*

dklautau disse...

Belíssima descrição do lago, dos peixes dourados e do encontro com o peixe de fogo e o diálogo do eterno retorno.

Poético, a natureza em sua eterna dinâmica.

Definitivamente, nesse blog estamos registrando uma estória fantástica.

Sabe-se lá o que poderá vir a ser...

Dois pontos por enquanto!