5 de fevereiro de 2011

Cap. 10 - Miragem


(...) e não cometeis suicídio, porque Deus é Misericordioso para convosco.

(Corão 4:29)

Um homem, mesmo na mais escura das prisões, é livre se estiver com Allah (swt [1]) que em sua infinita generosidade suporta seus servos, mas...

Por volta das 09:30h, Fahir se dirige até a cela de Abdul para trocar o balde de excrementos e retirar o baú com as sobras do café-da-manhã. Encontra Abdul sentado no chão, escorado no canto da cela, com a cabeça reclinada, no meio de uma poça de sangue que se concentra principalmente em torno de seu pescoço. Próximo à sua mão direita, um grande pedaço de vidro. Fahir olha assustado para Abdul e se desespera, parece que não sabe como agir. Procura identificar a chave da cela em um grande molho de chaves enquanto balbucia “Allah (swt), Allah (swt) me ajude. Se esse menino morrer o comandante vai me matar...”. Corre até o pé das escadas e grita: Tevfik, o menino se matou. 
Volta correndo, abre a cela e vai em direção a Abdul que está de olhos fechados, aparentemente inconsciente. Delicadamente Fahir se agacha, segura e eleva a cabeça de Abdul com o intuito de examinar seu pescoço e verificar a gravidade de suas feridas. Neste momento Abdul sorrateiramente agarra o caco de vidro e desfere um golpe certeiro no rosto de Fahir, seguido de um chute em sua virilha, que momentaneamente o neutraliza. 
  
Abdul sai correndo em direção às escadas, sobe até o 1º. andar da nau voadora, onde um senhor baixo, com uma longa barba, em uma estranha armadura parece estar trabalhando. Ele se assusta com a presença de Abdul. 
-Intruso!    Grita enquanto caminha em direção a uma corda amarrada a um imenso sino. 
Abdul, ao ritmo ensurdecedor das badaladas do sino, continua correndo em direção ao convés, mas próximo à sua saída se depara com um homem com uma pequena cimitarra. 
-Renda-se. 
-Nunca. 
Abdul vai na direção de seu opoente, que desfere um golpe. Mas Abdul é mais ágil, se esquiva, o finta e segue seu caminho rumo ao tombadilho. 

No convés, Abdul se depara com mais dois homens armados também com pequenas cimitarras que vão ao seu encontro. Abdul valendo-se de sua agilidade se esquiva dos seus golpes, fazendo-os de bobos. 
Na proa do navio, estava Tevfik que observa Abdul impressionado com sua agilidade e astúcia bem além do comum. Ele pega seu imenso astrolábio e o aponta para Abdul. Através desse instrumento, Tevfik consegue ver a áurea, e se espanta com a da de Abdul. É de uma rara pureza. Um branco encandeante, com pequenas faíscas, pontos cintilantes que pareciam dançar... Tevfik poucas vezes viu algo parecido, mas não tinha dúvidas, Abdul despertaria a qualquer momento. 
-Cuidado, eu quero o garoto vivo!    Gritou Tevfik com um imenso sorriso no rosto. 
Os perseguidores de Abdul pararam instantaneamente, olham para Tevfik, respondem em coro “Sim, senhor” e, para alívio de Abdul, guardam suas cimitarras. Mas esse alívio durou pouco. Um dos homens pega um chicote, outro uma corrente e o outro um imenso bastão. 
Abdul se esquiva, foge, mas é encurralado. Sem saída, ele se agarra a uma corda que está no convés, amarra-a na cintura e sobe no para-peito da embarcação. 
Tevfik se assusta e corre em sua direção. 
-Abdul! Abduullll!    Grita enquanto Abdul pula, ficando dependurado a aproximadamente 5m abaixo do nível do tombadilho. 
Tevfik faz um sinal e os três homens começam a içá-lo vagarosamente. 
-Olhe pra baixo Abdul. Estamos a 50m de altura, você não tem pra onde ir. 
Abdul desamarra a corda de sua cintura. 
-Calma Abdul, o que você pensa que está fazendo? Não conheces o ditado: “viva hoje, lute amanhã”?    Tevfik sinaliza para que parem de içá-lo, estando a apenas 2m de distância. 
-Eu vou me jogar lá em baixo! 
-Por que? Que mal fizemos a você? 
-Eu quero ir embora. 
-Para onde? 
-Para o chão. 
-Abdul, seja razoável... 
-Para aquela cela eu não volto.    Interrompe Abdul. 
-Abdul, me escute, eu tenho uma proposta para você. Que tal viajar como nosso hóspede e não mais como nosso prisioneiro? 
-Como assim?    Perguntou Abdul confuso. 
-Viajarás como nosso hóspede até Jerusalém. Serás acomodado em uma de nossas cabines. Serás vigiado e escoltado 24h por dia, mas poderás transitar livremente pelo convés e dependências comuns da nossa “Nau Voadora”. Chegando em Jerusalém, Jabir irá verificar sua história. Se for verdadeira, estarás livre. 
Abdul olha para Tevfik com desconfiança. 
-Confie em mim. 
Abdul parece hesitante e olha para baixo como que a avaliar suas opções. 
-Não queres saber quem somos? Queres saber por que perseguimos “os magos”? Não queres saber por que atiramos em seu tio Hasan?
Abdul olha para Tevfik com um brilho diferente no olhar. 
-Você vai me dizer a verdade? 
-Tudo o que me for permitido. 
Abdul parece pensativo, depois de alguns instantes faz um movimento afirmativo com a cabeça e os homens no convés voltam a içá-lo. 
-Muito bem Abdul, fez a escolha certa. Bem vindo de volta a “Nau do Céu Marzani”.    Disse Tevfik sorridente. 
Abdul olha por sobre o ombro de Tevfik e fica branco, Tevfik olha para trás e vê Fahir vindo em direção de Abdul, parecia estar fora de si. Possesso de raiva agarra Abdul pela garganta, o coloca contra o mastro e o suspende a 30cm do chão. 
-Calma Fahir... Fahir, acalme-se... Fahir, pare!    Exclamava Tevfik, mas Fahir parecia não escutar, como se estivesse agindo no “piloto automático”. 
-Moleque insolente, eu vou partir seu crânio ao meio.    Disse enquanto erguia sua marreta. 
Abdul fechou os olhos. Seu fim parecia iminente. 
Quando Fahir ia desferir o golpe, é impedido por uma mão que o agarra pelo punho. 
-Ninguém morre nesta embarcação senão por ordem minha.    Disse uma voz grave, gutural. 
Fahir olha para ele meio que desnorteado e solta Abdul que cai no chão, tossindo. 
-Sim, comandante. 
O comandante fita Abdul enquanto se erguia. 
-O que é isso?    Aponta para a mancha vermelha em suas vestes. 
-Suco de tomate com uma pitada de geléia de morango, senhor. 
-O que aconteceu, Fahir? 
-Este moleque simulou suicídio. Quando fui ajudá-lo, me atacou e escapou.    Explicou-se Fahir. 
-Fahir, não sabes a diferença de sangue para suco de tomate?    Perguntou o comandante aparentando desapontamento. 
-Senhor, ele me pegou de surpresa, desprevenido, mas não irá acontecer novamente. 
-Um garoto te enganou?!
-Fahir nunca matou sequer uma galinha, por isso não sabe a diferença do cheiro de sangue para suco de tomate. Hehehehehe    Caçoou dele um dos tripulantes, seguido de uma gargalhada dos demais. 
-Eu vou arrancar sua cabeça!    Exclamou Fahir enquanto procurava o autor da piada. Os tripulantes calaram-se instantaneamente e o autor da piada, já estava em fuga. 
-Fahir, acalme-se. Vá para sua cabine e descanse até a hora do jantar. 
-Mas senhor... 
-É uma ordem Fahir. 
-Sim, comandante.    De cabeça baixa, aparentando profundo constrangimento, Fahir se retira, mas não sem antes olhar para Abdul com o mais profundo ódio. Assim que ele se retira, ouve-se: 
-Na próxima vez que alguém for matar uma galinha, chame o Fahir para ele aprender a reconhecer o cheiro de sangue [2].    Seguiu-se outra gargalhada coletiva. 
(...)
-Capitão, posso conversar com o senhor por um minuto? 
-Claro, contramestre Tevfik.    Os dois se retiram do convés. Depois de aproximadamente 15min, Tevfik retorna. 
-Então Abdul, deixe-me apresentá-lo a nossa tripulação. Estes são Dilan, Dilhan e Dilar. 
-Na verdade eu sou Dilhan. 
-Eu sou Dilar. 
-E eu sou Dilan. 
-Assalam-u-Alaikum.    Diz Abdul. 
-Waalaikum salaam, Abdul.    Responderam em coro. 
-Vocês são... Bem parecidos.    Constatou Abdul. 
-Somos trigêmeos. 
-Mas eu sou o mais bonito. 
-Não, eu sou o mais bonito. 
-“Beleza não se põem à mesa”, mas eu é que sou o mais bonito. 
-O que teremos hoje para o almoço?    Perguntou Tevfik. 
-Cordeiro assado.
-Eu que prepararei o prato principal.    Disse Dilhan. 
-Hum... Provavelmente vai estar mais salgado do que a água do mar morto.    Diz um dos irmãos.
-Olha só quem fala... Você como ‘cozinheiro’, é um grande ‘soldado’. “COMEU, MORREU”... He he he he he. 


Dilhan, Dilan e Dilar
(não necessariamente nesta ordem)
Acólitos da "Ordem da Razão"

-Eles se entendem bem, vamos Abdul, depois te apresento o restante da tripulação.    Desceram até o 1º. Andar e encontraram aquele senhor em pitoresca armadura. 
-Este é Ahmet Kadar. 
-Assalam-u-Alaikum.    Disse Abdul enquanto fazia uma leve reverência. 
-Waalaikum salaam, Abdul.
- Kadar cuidará de você até a hora do jantar. 
-Você prometeu que conversaríamos sobre meu tio Hasan. 
-Também disse que conversaríamos sobre quem somos. Tudo a seu tempo, Abdul. Agora tenho que ir. Preciso resolver algumas questões importantes. Hoje à noite conversaremos sobre seu tio. Assalam-u-Alaikum, Abdul.
-Waalaikum salaam, Tevfik.
-Abdul, bem vindo a minha oficina. Aqui temos a honra de compartilharmos a glória de Allah (swt), sendo seus humildes co-criadores.    Disse orgulhoso Ahmet Kadar. 
-Como assim? 
   
 (continua...)

Ahmet Kadar
Alto Artesão

Profetizou Seydna Issa [3] (saw [4]) “conhecerei a verdade e ela vos libertará”. Mas o que é a verdade? Para os dedaleanos a resposta é simples: a verdade está em tudo que é construído, forjado em nossas oficinas. “Se você está perdido, olhe para nossas magníficas obras e terá alguns insights”, costumavam repetir. 

Mal sabia eu que estava sendo apresentado à “epistemologia dedaleana” por um dos seus maiores entusiastas. Afinal de contas, sair à caça às bruxas é a última etapa no caminho proposto pela “Ordem da Razão”. Antes é necessário um processo de doutrinação que consiste no aniquilamento de sua identidade e assimilação de seus valores que irão moldar sua personalidade, incorporando o ethos dedaleano. Uma trilha que sem perceber já começava a percorrer...


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[1] Subhanahu wa ta’ala: “glorioso e exaltado é Ele”.

[2] De acordo com a tradição islâmica, para se consumir a carne de um animal, ele deve ser morto por degolamento para que o sangue possa se esvair. 

[3] Sallallahu 'alaihi wa sallam. Usualmente quando um muçulmano se refere a Muhammad, Jesus ou qualquer profeta, imediatamente após o nome se diz ou escreve "que a paz e bênção de Allah estejam sobre ele", ou simplesmente a sigla s.a.w.

[4] Senhor Jesus, considerado um grande profeta pelo islã, o profeta da interioridade, da santidade.


2 comentários:

dklautau disse...

Hugo, me impressionou a perseguição do Abdul! Digno de um piartas do caribe com Senhor dos Anéis no ambiente de Simbad, o pirtata e Ali Baba e os quarenta ladrões!!!

O tema do suicídio, o sangue e o suco de tomate, a zoeira em cima do carrasco que foi enganado! Muito bom!

Sem falar da epistemologia dedaleana. rsrsrsrsrs. Brilhante. A descrição do astrolábio é excelente também. Parece que temos aqui uma estória à parte como prelúdio do Abdul. Excelente!

Obrigado por nos oferecer essa crônica do Abdul de forma ímpar!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Obrigado Diego,

Vamos ver o que acontecerá com Abdul quando chegar em Jerusalém... HEHEHE

Hugo Marcelo