30 de janeiro de 2011

Cap. 08 - Isra?


Terminada a Tawaf  [1] nos dirigimos para o “Muro Zamzam”, uma fonte perene de água potável que se localiza no interior da mesquita sagrada de Masjid al-Haram [2]. A emoção que sentia era indescritível. Ficava imaginando a alegria de Hagar ao poder oferecer esta água ao seu filho Ismael.

Hasan procedeu a ablução [3] e nos dirigimos para o canto oposto do pátio central da mesquita, um local discreto e com pouco movimento. Ele então abriu o sagrado Corão e começou a recitar suas suras. Não sabia que Hasan cantava tão bem. Era como se a cada palavra entoada me sentisse mais próximo de Allah (swt [4]) em toda a sua glória. Uma felicidade indefinível brotava em meu coração, mas, ao mesmo tempo, uma preocupação impertinente tirava a minha paz. Sentia no meu íntimo a necessidade de seguir o meu caminho, como se o próprio anjo do meu sonho me ordenasse seguir para Jerusalém [5]. Mas como? Não conhecia a região, aliás, não fazia idéia onde ficava esta cidade. Será que Hasan poderia me conduzir até lá? Teria eu o direito de lhe pedir isso? Mal sabia que Allah (swt), al Jalil [6], em sua infinita sabedoria já havia predestinado tudo. Só cabia a este humilde servo se curvar a sua perfeita, porém, misteriosa vontade...

Enquanto Hasan brindava Abdul com a recitação do Corão, estes não perceberam uma pequena nuvem solitária a aproximadamente 10m de altura que lentamente se aproximava. Paralelamente, três soldados otomanos fortemente armados se esgueiravam por entre a multidão. Um deles trazia consigo um peculiar astrolábio, que ao invés de direciona-lo para o céu, estava como que “examinando” os peregrinos, como se estivesse procurando alguém. Até que furtivamente focou o instrumento em Hasan. O soldado o observa por alguns segundos, faz um movimento afirmativo com a cabeça e os três se separam e cercam Hasan e Abdul que sem nada perceberem, continuam orando. Um dos soldados, o mais velho, aparentemente o líder do grupo, acena para a estranha nuvem que começa a se expandir, a se expandir, até que uma densa neblina encobriu todo o pátio da mesquita. Neste momento Abdul percebe que algo de errado está acontecendo.


Soldados Otomanos (Dedaleanos)
   
-Tio Hasan, alguma coisa está errada.
Hasan para de cantar, abre os olhos e percebe a densa neblina que os cerca. Assume a posição de prece maometana, segura seu amuleto, aparenta estar apenas orando, pronuncia algumas frases do Corão e abre o seu terceiro olho. Neste momento percebe por entre a multidão, os três dedaleanos que os cercam. Aquele com o astrolábio apontado para Hasan grita “fomos descobertos”. Hasan segura seu amuleto, assume a posição ortostática e exclama:
"Astrolábio"
-Estamos sendo atacados, proteja-se Abdul...    Antes que terminasse a frase um dos dedaleanos dispara uma flecha nas costas de Hasan, o qual se volta e estende a mão em direção a esta, que pára e fica flutuando a poucos centímetros de distância de Hasan. Então, ele faz um movimento com o outro braço e a flecha se eleva a aproximadamente 4 metros de altura, muda sua direção, gira aproximadamente 45o, assume uma direção levemente descendente e inicia sua viagem a altíssima velocidade até atingir em cheio o astrolábio, o qual explode ferindo gravemente o dedaleano. Algumas pessoas que estavam próximas também são feridas pelos estilhaços. Estava armada a confusão. Inúmeros peregrinos apavorados, tumulto, corre-corre... Alguns tentando ajudar os feridos, outros tentando fugir.
-Precisamos sair daqui agora.    Hasan pronuncia algumas palavras e são teletransportados para fora da mesquita, defronte a entrada central, o que deixou Abdul desorientado.
-Vamos Abdul. Venha comigo, corra, corra!    Hasan segura o antebraço de Abdul e praticamente o arrasta.
Dada a tensão do momento e a densa neblina, Hasan não percebe a peculiar aeronave que se localiza perigosamente próximo a eles, equipada com uma mini-bombarda [7] que dispara um estranho projétil, semelhante a uma "bola de fogo" que acerta Hasan em cheio, arremessando-o a vários metros de distância, deixando-o desacordado, para desespero de Abdul que sem entender nada do que está acontecendo, tenta reanimá-lo, mas é em vão.
A nave se aproxima e Abdul consegue vê-la, um tipo de “barco voador” e identifica a bombarda que parece estar sendo recarregada para um segundo tiro. Abdul se coloca à frente de Hasan e recebe o disparo, mas ao invés de uma bola de fogo, é como uma rede de aço que o envolve, sendo lentamente içado para a aeronave.


Nau Voadora

- Você não parece com "O Mago" que procuramos. Quem és tu?  -  Perguntou um homem com voz grave, gutural.
   
-Eu sou Abdul e não sei do que você está falando.
   
-Você mente. Fahir, cuide dele. Ihsan, você errou! Nos trouxe apenas um garoto.
-Desculpe-me comandante, foi a neblina que...
-Traga-me aquele mago, agora!
-Sim, comandante.    Respondeu enquanto recarregava a Bombarda com a malha de aço, mas já era tarde.
-Comandante, ele não está mais lá.
-Como assim?    Neste momento ouve-se um grande estrondo e a “nau voadora” balança.
-Estamos sendo atacados, capitão.
-Contramestre Tevfik, encontre o mago agora!
-Sim, capitão.    Tevfik empunha um imenso astrolábio e fica olhando para o solo, procurando Hasan desesperadamente, quando ouve-se outro estrondo ainda mais forte e a nave balança tão violentamente que o capitão se agarra ao mastro principal para não cair.
-O que foi isso?
-Capitão, foi um imenso bloco de pedra que acertou nossa nave. Foi seriamente avariada.
O capitão olha para Tevfik com mais profundo ódio, hesita por alguns instantes e então exclama enfurecido: RECUAR.
-Sim, capitão.
-Contramestre, peça apoio para equipe em terra. “O Mago” precisa ser capturado, vivo ou morto.
-Sim, capitão.
1o. Andar da Nau Voadora
Neste momento, Fahir está arrastando Abdul para o interior da “embarcação voadora”. Passam pelo 1o. Andar, logo abaixo do convés, que mais parece uma grande oficina. Descem 4 lances de escada e chegam ao último andar, onde bem no fundo do barco há uma pequena cela. Fahir joga Abdul lá dentro e o trancafia, sem dar atenção aos seus protestos. Por uma pequena escotilha, Abdul observa o nascer do sol e a mesquita de Masjid al-Haram, que lentamente ia desaparecendo no horizonte.

Existem momentos na vida que fogem completamente ao nosso controle. Preocupado com a saúde de Hasan, sem entender nada do que estava acontecendo, a única coisa que me restava era confiar na infinita misericórdia de Allah (swt). À medida que Mecca ia ficando para trás, intuitivamente aumentava a certeza de nosso destino, mas diferentemente de Muhammad (saw [8]) que viajou para Jerusalém montado no glorioso al-Buraq, eu estava indo como prisioneiro da “Ordem da Razão”... Mas se esta é a vontade de Allah (swt), pois que assim seja.

Visão de Abdul pela escotilha 
(a Kaaba é apenas um ponto negro no pátio central da mesquita)






_____________________
[1] Ritual no qual o peregrino faz sete circumambulações em torno da Kaaba.
[2] Mesquita sagrada construída ao redor da Kaaba.
[3] Ritual de purificação realizado antes de se manusear o Corão.
[4] Subhanahu wa ta'ala: "glorioso e exaltado é Ele".
[5] Para conhecer o sonho de Abdul, leia a postagem “Cap. 03 – Qual é o seu desejo?”.
[6] Um dos "99 atributos de Allah" que significa "O Sublime".
[7] Bombarda foi uma espécie de canhão primitivo utilizado pelos Otomanos na tomada de Constantinopla. Para ver uma ilustração clique aqui.
[8] Sallallahu 'alaihi wa sallam. Usualmente quando um muçulmano se refere a Muhammad, Jesus ou qualquer profeta, imediatamente após o nome diz ou escreve "que a paz e bênção de Allah estejam sobre ele", ou simplesmente a sigla s.a.w.




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10 comentários:

Camila Numa disse...

Pô Hugão, inspiradasso, né?
Eras, bem que tu poderias providenciar uma Nau Voadora pra gente, né?
Ok, tá certo que a gente ia chamar "um pouquinho" da atenção, mas ia ser tão bacana!
hahahahahahahha
A visão de Abdul pela escotilha tb foi mt legal!
Procurando cada vez mais imagens!
Genial!
Viu só como a tua história pode ter mil e um contos?
hahahaha
Beijos!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Que bom que gostou.

Com relação a "Nau Voadora", o Boggan tem um barco voador, é só a gente pedir emprestado... Hehehe

Me deu muito trabalho fazer esta figura, mas acho que valeu a pena...

Preciso inventar alguma coisa pra quando Abdul chegar em Jerusalém... Vamos ver...

Um grande abraço,

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

Confesso que fiquei nervosa com todo o texto!
Quero só ver qd Abdul chegar em Jerusalém! Só n vai fazer que nem o filme Aladim!
Ei, eu queria saber, ele aí já estava casado?

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

O que aconteceu no filme Aladim?

Nâo, Abdul está com 13 anos e solteiro...

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

Hehehehe. Ele acaba ficando com a Jasmine por lá mesmo e não viaja mais.
Ora, temos que nos encontrar no futuro!
hehehehehehe

Bem que eu descinfiava que ele ainda estava solteiro.
Quantos anos ele se casa?
Sim pq acredito que naquela época eles se casavam jovens ainda né?
Bem que poderias fazer um capitulo com o primeiro encontro/casamento do Abdul (olha só a mulherzinha querendo saber da estória de amor do personagem!)
;)
=*

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

É uma boa idéia este cap. sobre Abdul X Amineh Nadira, sua primeira esposa... Estou pensando em algo que seja bacana, uma história bela, com um componente trágico, vamos ver se consigo...

Pode ficar tranquila que sua estada em Jerusalém não será longa... Hehehehe

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

Acho que seria legal tb falar sobre o nascimento e a relação do Abdul com o nascimento da primeira filha.
Acho que nessa cultura seria super emocionante!
=)

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Vou pensar em algo neste sentido...

Hugo Marcelo

dklautau disse...

Grande Hugão!
Excelente descrição, componentes bem elaborados.

Achei bom como você resolveu a questão dos dedaleanos islâmicos. A Nau voadora pode ser dos mestres celestiais, uma facção dedaleana.

A cena da batalha está ótima, emocionante. O lance da flecha ficou muito bom!

Vejamos como Hasan vai encontrar Abdul.

Ah sim, vale os dois de experiência!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Diego,

Que bom que gostou e viva a "Bolsa Prelúdio"!!!!

Hugo Marcelo