23 de setembro de 2010

Prelúdio de Abdul Haseeb Muhammad Abn Abdulaziz: Cap. 03 - Qual é o seu desejo?


Alguns dias após o sepultamento de minha mãe eu tive um sonho tão perturbador que mudou para sempre os rumos da minha vida:
      








       
        
   
       
             
         
-Abdul, acorde Abdul.  –  Interveio meu tio Hasan.
-Hã?  Como?  Tio, tio Hasan...  É você?
-Sim, acalme-se sobrinho.
Olho em volta e percebo que estou em nossa tenda no deserto.  Escuto apenas o uivo do vento, sinto o calor da fogueira a poucos metros, vejo o luar entrando por uma pequena fresta, tudo aparentemente bem.
-Vou preparar um chá pra você se acalmar, você está todo suado.  Tranqüilize seu coração, foi apenas um sonho.
-Sim, mas foi tão real!  Por Allah (swt) [1]...
-Beba.  –  Estendeu a mão oferecendo uma xícara de chá.
-Obrigado.
-Venha aqui para fora tomar ar fresco...  –  Disse enquanto se dirigia para fora da tenda.
-Que maravilhoso céu estrelado.
- Sim tio, e a lua também.
- Com o que sonhou?
- Tio, foi o sonho mais estranho de minha vida.  Por Allah, Al Mutakabbir [2].  Sonhei que eu e mais dois homens desconhecidos, com os rostos cobertos por causa do vento, vagávamos sem rumo pelo deserto, estávamos exaustos, sem água ou comida.  Quando o nosso fim parecia iminente, veio uma ventania muito forte que nos atirou ao chão, o vento então se transformou em um redemoinho de poeira, mas não parecia um redemoinho comum como estamos acostumados a ver no deserto.  Ele era bem mais compacto e parecia escavar a areia.
-Sim, prossiga.
-Passado alguns minutos, o redemoinho parecia ter escavado a areia e revelado um tesouro que estava escondido a aproximadamente 10m de profundidade.  Neste momento os dois homens se precipitaram desesperadamente em direção ao objeto dourado que eu não conseguia identificar e começaram a se agredir e gritavam frases como: “Essa lâmpada é minha”.  “Eu a vi primeiro, ladrão”.
-Interessante. E então?
-Então, após trocarem alguns socos e insultos, um deles se apoderou da lâmpada e esfregou-a vigorosamente com a manga da camisa.  Uma voz soou como um trovão: “FAÇA SEU PEDIDO”.
-O homem disse: “Água, água para matar a minha sede”.
-A mesma voz respondeu ainda mais forte: “COMO QUISERDES”.
-Nisso, de forma inexplicável, uma torrente de água se abateu sobre ele, enchendo toda a vala onde se encontrava, matando o pobre homem afogado.  A outra pessoa aproveitando-se da situação, agarrou a lâmpada e saiu correndo.  Também quase se afogou, mas conseguiu escapar.  Após alguns minutos de descanso às margens daquele pequeno “lago” que se formara, esfregou a lâmpada e novamente ouviu-se: “FAÇA SEU PEDIDO”.
-E o que ele pediu?  –  Interpelou Hasan.
-Com sua sede saciada, ele disse: “Uma cáfila carregando todo ouro que conseguirem transportar”.  Aquela voz respondeu, em tom de ira: “QUE ASSIM SEJA”.
-E o que aconteceu Abdul?
-Subitamente, por trás deste homem um número incontável de camelos desgovernados surgiu.  O infeliz tentou fugir, mas foi atropelado pelos animais e morreu pisoteado.  Depois que os camelos passaram, pude ver seu corpo estendido e várias jóias, moedas e pepitas de ouro pelo caminho, como que seguindo o rastro dos animais.  Provavelmente faziam parte da carga da cáfila.  Nesse momento vi a lâmpada no chão e peguei-la.  Lembro-me que estava amassada pelos cascos dos animais.
-E o que você fez Abdul?
-Nada.  Fiquei com a lâmpada na mão, olhando aquela cena inusitada.  Então ouvi uma voz doce, porém incisiva me chamando: “Abdul”.  Quando me virei, vi um homem alto, vestido com manto impecavelmente branco.  Ele me disse: “O que você realmente deseja Abdul?  Me diga.”  –  Os olhos de Hasan brilharam, estava realmente impressionado com a história.
-Diga-me Abdul, o que respondeste–  Perguntou impaciente.
-Eu respondi: “Eu desejo a Verdade”.  Então aquele homem misterioso estendeu seu braço, fez um movimento como que se desenhasse um semi-circulo no ar e me disse: “O que procuras, não encontrarás nesta lâmpada”.  E a lâmpada se transformou em areia a escorrer por entre meus dedos.
-E o que aconteceu sobrinho?  – Hasan me olhava fixamente.
-Aquele homem olhou pra mim, sorriu, e voou em direção vertical, tão rápido que em poucos segundos estava tão alto que não conseguia mais vê-lo.  Passado alguns minutos ouvi um estrondo e pude vê-lo novamente no céu, mas não estava sozinho.  Aos poucos foi se aproximando, se aproximando e pude ver um animal alado consigo, mas apenas quando pousou eu consegui identificá-lo.
-Allah, bismillah [3], eu não acredito.  Era ele?  O animal do profeta?
-Sim, tio Hasan, era ele, al-Buraq [4].
        
 











      
-Então esse homem só pode ser...
-Sim tio, provavelmente era o “Anjo Gabriel”.  Ele, então, veio até onde eu estava, trazendo o animal, e me entregou suas rédeas.
-Impressionante!  – Exclamou maravilhado.
-Então o Anjo alçou voou, ficou flutuando a uns 4 metros do chão e me disse: “Siga-me”.  Olhei para al-Buraq, parecia sorrir para mim.  Percebi que deveria montar o animal divino.  Mas, não pude fazê-lo...
-Como assim Abdul?
-Eu olhei para o Anjo e gritei: “Eu não sou digno de montar al-Buraq”.  Então olhei para o animal, agora parecia triste, me olhou com compaixão, seus olhos ficaram cheios de lágrimas.  Olhei para o Anjo, estava com um olhar aflito, percebi que estava profundamente decepcionado comigo, e então...
-Prossiga Abdul.
-Então, ele elevou seus braços, suas mãos estavam em chamas, e a última coisa que me lembro foi um grande lampejo que me ofuscou.  Neste momento despertei.  –  Hasan me olhou em silêncio por alguns segundos.
-Por que você não montou al-Buraq e seguiu o glorioso “Anjo Gabriel”?
-Tive medo.  –  Afirmei enquanto abaixava a cabeça, envergonhado.
-Temor pelo desconhecido é natural.  Você ainda é muito jovem, sua mãe morreu recentemente, você ainda está de luto, talvez confuso, mas precisa aprender a lidar com “O Medo”, ou nunca serás um homem.
-E como faço isso tio?
Hasan me olhou e sorriu desafiadoramente.
-Bem...  Al-Buraq foi o transporte de Muhammad (s.a.w.) [5] na sua “Jornada Noturna”.  Aparentemente, em seu sonho, você foi convidado a refazer os caminhos do profeta.
-Faz sentido tio.
-Acho que está na hora de você fazer o seu próprio caminho.
-Tio, o que você quer dizer com isso?
-Não percebes?!  O seu sonho indicou o caminho que deves trilhar!  É impossível para um mortal comum perfazer o caminho do profeta na Mi' raj, mas a Isra...
-Estás sugerindo que eu...
-Sim Abdul.  Acho que você deveria refazer os caminhos do profeta.  Ir até Kaaba em Mecca [6], e de lá seguir para Jerusalém.
-Mas como tio?  Nem sei ao certo onde fica Mecca?
-Venha comigo!  Faremos juntos a Hajj [7].
Olhei para ele assustado, depois de alguns instantes me disse:
-Você não precisa decidir nada agora.  Eu ainda ficarei como hóspede em seu acampamento por três dias e três noites.  Está tarde, vamos voltar para nossa tenda?  Amanhã podemos conversar novamente sobre isso, se quiser.
Afirmei positivamente com a cabeça.
-Boa noite Abdul.
-Boa noite tio Hasan.
   
Não conseguia dormir...  Fiquei imaginando o que teria acontecido se tivesse subido no lombo de al-Buraq e acompanhado o anjo Gabriel.  Teria ele me conduzido até Mecca ou Jerusalém?  Será que me encontraria com outros profetas, ou até mesmo com o Muhammad em pessoa?  Por que o anjo Gabriel ficou tão decepcionado comigo?
    
Mas como eu, um beduíno de apenas 13 anos a vagar pelo deserto com minha família, poderia imaginar que Allah (swt) teria planos tão grandiosos para este seu servo tão humilde?
    
      
         

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[1] Subhanahu wa ta'ala: "glorioso e exaltado é Ele".
    
[2] Um dos "99 atributos de Allah" que significa "O Majestoso".
    
[3] é uma fórmula em árabe usada em variados contextos da vida de um muçulmano. O texto em árabe da bismillah é: بسم الله الرحمن الرحيم (transliteração: bismi-llāhi r-raḥmāni r-raḥīm), significa "Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso". A palavra bismillah tem a sua origem nas quatro primeiras consoantes da fórmula.
 
[4] Al-Buraq (em árabe "relâmpago", ou "de relâmpago") é um animal mítico semelhante a um pequeno cavalo alado com cabeça de mulher com uma coroa e longas orelhas (vide ilustração), veloz como o vento. De acordo com a tradição islâmica foi o próprio anjo Gabriel quem trouxe este animal até o profeta Muhammad, sendo seu "transporte" para a "Jornada Noturna", a qual se dividiu em duas partes: Isra e Mi'raj. A Isra começou em Kaaba, na cidade de Mecca, onde o profeta montou o animal e viajou até Jerusalém e amarrou este animal na parede ocidental do muro de Jerusalém, se reunindo com outros profetas como Moisés, Jesus e Adão para orar. Em seguida, teve início a Mi'raj: montou novamente em al-Buraq e foi carregado até o paraíso, onde encontrou-se novamente com outros profetas, incluindo Abraão. Então foi conduzido pelo anjo Gabriel até a presença do próprio Allah, que instruiu Muhammad e os islâmicos a orarem cinco vezes ao longo do dia. Tudo isso em apenas uma noite.
      
[5] Sallallahu 'alaihi wa sallam. Usualmente quando um muçulmano se refere a Muhammad, Jesus ou qualquer profeta, imediatamente após o nome diz ou escreve "que a paz e bênção de Allah estejam sobre ele", ou simplesmente a sigla s.a.w.
     
[6] Kaaba é uma construção reverenciada pelos muçulmanos, considerado o local mais sagrado do mundo. É uma construção cúbica de aproximadamente 15m, coberto por uma manta negra. É o centro das peregrinações e é para onde os muçulmanos se voltam quando oram.
    
[7] Peregrinação a Meca, obrigatório pelo menos uma vez na vida para todos que gozem de boa saúde e meios financeiros para tal.
    
Ilustrações:
     Gravura abstrata original
 
     Desenho al-Buraq
       

Um comentário:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Obrigado Diego!

Hugo Marcelo