16 de setembro de 2010

Svetlana Olen ¥ Cap. 2 - 15 de março de 1400

¥ Svetlana Olen ¥ 
Cap. 2 - 15 de março de 1400.



* [Em uma tarde de inverno, meu pai não veio ao meu encontro. Foi aí que a vi pela primeira vez...] pelo menos era no que acreditava.

Apesar de toda a brancura da neve que cobria as montanhas de Kupala Alka, e que por hora quase me cegava, era impossível não notá-la. Sua beleza era tanta que me fez pensar no rosto de minha mãe, que adornava meus sonhos nas noites mais solitárias, quando estava longe de meu amado pai. Seus cabelos eram ainda mais brancos que a neve com algumas mechas prateadas. Os cabelos que molduravam o seu rosto não espelhavam o frescor de sua pele, muito menos a sua aparência ainda muito jovem e traços delicados.

Eu estava apoiada em uma pedra banhada pelo rio Bartuva, e em algumas partes do seu leito, haviam camadas de gelo misturadas com pedras e galhos secos. Mesmo com todo esse frio mais forte do que o normal, fiquei petrificada, mas pela sua presença. Lá estava ela, longe, caminhando sobre as águas na parte mais profunda por onde corria o rio. Essa área, embora esteja tomada pelas encostas das montanhas fazendo um corredor estreito e escuro, uma espécie de luz azulada a acompanhava. Enquanto caminhava, fazia movimentos suaves no ar com as mãos, como se dançasse Suktinis¹.

Tinha certeza que não havia pessoa mais bela na Terra. Aos poucos, fui vendo sua figura cada vez maior, caminhando em minha direção. Os desenhos formados na água em círculos com epicentro, não eram mais meus causados por minhas pedrinhas lançadas, mas pelo toque de seus dedos. Sim, ela estava descalça e com uma túnica púrpura com bordados brilhantes e incandescentes verdes.

Ao se aproximar, pegou na minha cabeça e se agachou, ainda sob a água, na altura de meus olhos. Sua pele me fazia lembrar aos pêssegos que papai me trazia quando voltava de país a fora, no qual agora, não me recordo do nome. Seus olhos eram tão negros e intensos que tinha medo demais para olhá-los fixamente. Atrás de mim, senti uma respiração quente e ofegante vindo embaralhar meus cabelos. Foi pela escuridão de seus olhos que vi refletido o maior lobo de minha vida.

- Ramus... pajusti! Ji yra!² - Disse ela.

Ao invés de sentir a mordida tão esperada criada pela minha imaginação fértil de criança, o lobo deitou-se ao meu lado, e me aqueceu. Embora seus pêlos fossem incrivelmente macios, não ousei tocá-los.

Logo ela riu. Olhou-me e riu novamente. E foi aí, nesse exato momento que me recordei de tudo. Era ela a primeira pessoa que havia me visto pela primeira vez. Seu sorriso ainda estava gravado em minha memória, mas gravado com menos dentes e a pele bem rugosa.

Não sabia como, mas senhora Ausra, estava lá. E levaram-se sete anos para reaparecer.

Passei a tarde inteira ao seu lado e do grande lobo. Sem ela dizer uma só palavra, conversara comigo por horas até o entardecer. Disse-me coisas bonitas sobre a vida, áurea, cores, sabores, odores, sentidos... Senti por vários momentos frio e calor, tremi e suei, chorei e sorri. Meus sentimentos perto dela ficavam bem mais aflorados a cada pensamento que me fazia ver, sentir.

O tempo passou estranhamente, rápido e devagar ao mesmo tempo. Me fez prometer em guardar segredo de nosso encontro e que se mantivesse a palavra, outros haveriam de acontecer. Jurei encantada por ter uma mulher ao meu lado novamente, conversando comigo não sobre como pegar em um garfo, ou me sentar, ou até mesmo não gritar. Mas me explicando coisas simples da vida.

Antes de partir, ela docemente pegou um punhado de terra, fechou meus olhos e tocou na minha testa dizendo palavras estranhas que nunca tinha escutado. Ao abri-los, me encontrava sentada no mesmo lugar na frente do rio, com certeza com mais frio. No mesmo instante meu pai colocava suas mãos quentes em minha cabeça dizendo que era hora de voltar.

Perguntei o porquê da sua demora, e me respondeu dizendo que não havia demorado mais que nos outros dias. Não pensei mais nada, pois já podia sentir o cheiro do javali assado entre o caminho de volta para casa.

Muitas outras daquelas tardes vieram em sua companhia e na do lobo, sendo ainda mais surpreendentes. Costumávamos caminhar no meio dos bosques do domínio de minha família e às vezes, até mesmo mais pra . Quando já me encontrava cansada, me deitava nas costas do lobo branco, que mais parecia um cavalo em tamanho. Ele me levava sem fazer nenhum esforço. Eu tinha ganhado a sua confiança. E ele a minha.

Senhora Ausra, pelo o que entendia naquela época, era uma espécie de professora, que pouco a pouco foi me ensinando a identificar os sons de pássaros, os sussurros das árvores, reconhecer o valor de cada elemento natural, sem ter desprezo algum, nem mesmo pelos insetos que antes me repugnavam. Fez-me sentir odores de flores coloridas e muchas, sentir a textura das folhas, diferenciar cada uma pelo nome, cheiro e funcionalidade.

Algumas tardes íamos aos pântanos que cercavam o sul de minhas terras. Lá, me fazia entrar na lama, andar com o pé descalço para sentir as vibrações da terra. Ensinou-me a sentir o verdadeiro prazer que a natureza tem a oferecer. Confesso que os odores de lá me davam, por certos momentos, náuseas fortes, mas a sensação logo depois que me concentrava nas suas palavras, era incrível.

Tardes foram adicionando a primeira na tarde de inverno. No dia 15 de março de 1400, no dia que completava mais uma primavera, a Senhora Ausra se aproximou e me disse que precisava resolver problemas e que ia se ausentar por uns dias. Disse-me que voltaria na próxima lua nova, com a maré do Mar Báltico mais baixa.

Pela primeira vez, depois de quatro anos em sua companhia, ela iria “sumir”. E se foi me deixando sozinha mais uma vez.

Mal sabia eu, que tudo era uma questão de preparação. Naquele dia meu pai e eu ceiamos fartamente, mas sempre meus pensamentos iam até ela.

Durante aquelas semanas, continuei fazendo as mesmas coisas que me ensinava, li alguns livros que me deixara, cujo somente eu poderia ver e achá-los. Fora isso, nada mais incrível, só dias normais.

Na primeira noite de lua nova, ela não aparecera. Fui me deitar fugindo de meu pai depois do beijo de boa noite que lhe dei. Naquele tempo, ele insistia em dizer que era hora de casar-me, antes que ficasse velha demais para isso. Mas eu, com meus 11 anos só me interessava em rever Senhora Ausra.

Durante meu sonho, vi espécies de seres belissimos voando ao meu redor, como se quisesse mostrar um caminho. Eles estavam sorrindo, exalava cheiro de flores de laranjeira e pude sentir um gosto de pétalas de rosas em minha boca.

Subtamente acordei. A primavera logo estaria alí, e a temperatura, para mim já não incomodava tanto. Saí correndo, mas com muita prudência, para não fazer barulho nem perder o percurso que fiz no sonho.

Chegando lá, encontrei uma mulher sentada em frente à fogueira de costas para mim. Mais atrás estavam a Senhora Ausra em companhia com mais duas mulheres, ambas loiras e sobre suas cabeças, aparentemente crânios de touro e com poucas roupas.

Ao me aproximar, não paravam de olhar fixamente esta mulher, e sem mover seus olhos, ofereceram-me um saco feito de couro com uma bebida vermelha dentro, que me fazia lembrar os primeiros dias de festa da primavera com a matança de porcos. Tinha certeza que me esperavam ali.

No primeiro gole, senti uma rasgada em minha garganta, com prazeres mútuos em meu corpo. Orgasmos de sensações, cheiros e visões ao meu redor. Começaram os estrondos de tambores acompanhados com cheiro de erva de fígado e tanino pelos ares... Rendi-me!


[¹] Dança folclórica Lituana com “movimento como primeira maneira de expressar uma certa compreensão interior de sua relação com a natureza e o mundo. No início, sua criação usava apenas alguns movimentos, mas a partir daí vieram as danças. Elas tinham um poder mágico e delas eles extraiam ajuda para falar com seus deuses: os bons e os maus.
Nessa época o homem dançava diante de qualquer tipo de acontecimento: batalhas, casamentos, enterros etc. Mais tarde, tendo se tornado agricultor, ele dançou pedindo chuva, boa colheita, abundância, promessa de vida depois do inverno e assim por diante.”

[²] “ Calma... Sinta! É ela!”

4 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Muito legal seu texto...

Parabéns!!

Hugo Marcelo

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Cara Camila,

Para facilitar a localização da sua postagem seria importante que vc acrescentasse um "Título" à postagem.

Vc faria esta gentileza?

Atenciosamente,

Hugo Marcelo

Camila Thiemy Dias Numazawa disse...

HUGO: Mil desculpas Hugo!
Esqueci!

DIEGO: Medo!

=)

Faltam 1 semana

Camila Thiemy Dias Numazawa disse...

Fora que vai ter o Cap. 3 encontro com a Freya. E mais dois pontinhos, né?
Tenho que economizar para as próximas esferas...

=p