1 de abril de 2013

Encerramento do Tomo I - Palavras do Narrador

         
           É engraçado escrever estas palavras finais. Iniciamos essa crônica em agosto de 2009 quando eu retornava de uma viagem em minha cidade natal e tinha conversado bastante sobre o RPG que havia abandonado há alguns anos. Reencontrei amigos meus de adolescência e percebi o quanto o tempo pode nos separar das pessoas e que ao mesmo tempo nossas memórias dessas pessoas ainda permanecem intactas.

          Percebi que muitas dessas memórias estavam relacionadas com o RPG, que de fato tinha sido muito importante em minha adolescência e nas amizades que formei na época. E quando retornei pude conversar com minha noiva na época, minha atual esposa, decidimos montar um jogo. Convidei um grande amigo e irmão na fé católica que se interessava pelo assunto iniciamos a crônica.

       Como nenhum dos jogadores jamais tinha jogado RPG decidi por um sistema mais fácil de aprender e uma ambientação que provocasse certa inquietação. Os três éramos católicos (ainda somos), sendo os dois jogadores de formação biológica (uma professora de biologia e um médico) e eu como professor de história e filosofia enquanto o mestre. O resultado mais indicado era jogarmos a Cruzada dos Feiticeiros, sendo um desafio pra mim uma vez que eu nunca tinha jogado nesse cenário.

         Hoje, quase quatro anos depois, é impressionante ver o que aconteceu. Eu tinha originalmente planejado um jogo para durar algumas sessões. Esse planejamento se transformou no primeiro ato e gostamos tanto do jogo que decidimos convidar mais pessoas. E elas vieram. Algumas com apenas participações de poucas sessões, outras como o casal de amigos (eu e minha mulher fomos até padrinhos de casamento) que entrou a partir do segundo ato e que jogou até o fim.

          São exatamente cinquenta sessões de jogo nesses quatro anos (10 no ato I, 22 no ato II e 18 no ato III). Cinquenta vezes que nos encontramos para jogar RPG, bater papo sobre um monte de coisas e compartilhar tempo, ideias e a vida. É quase uma liturgia, uma espiritualidade, uma rotina religiosa. Sem contar com os prelúdios, interlúdios, cartas, magias criadas, diálogos, reflexões, consequências das ações dos personagens. Além das músicas, poemas, desenhos e pinturas, imagens escolhidas para ilustrar as riquezas da narrativa. Uma riqueza artística que eu nunca tive nos meus jogos de adolescência.

            Nesses quatro anos eu casei, tive uma filha e terminei meu doutorado. Muita coisa mudou e minha vida se alterou de uma tal forma que parece que falar de mim no início dessa crônica parece falar de uma outra pesssoa, ainda que me reconheça como eu mesmo. Quase um despertar de fato.

             Em meus delírios ainda penso em continuar um outro tomo, agora em nível ultraépico. Todos os personagens principais são arquimagos com arete cinco e com cinco níveis em uma ou mais esferas. Experiência demais e seria um bom desafio narrativo. Mas confesso que me exigiria demasiado. Talvez mais tarde. Agora preciso jogar outras coisas, cuidar da minha filha, trabalhar mais com as exigências que o mundo acadêmico exige. As ideias continuam, mas essa estória chegou ao fim.

          Em minhas palavras finais, que sinceramente não sei a quem se destinam porque eu simplesmente duvido que alguém que não estivesse envolvido no jogo tivesse a paciência de ler todos os três atos, agradeço aos visitantes esporádicos do blog que deixaram comentários, mensagens de incentivo e compartilhamento pela paixão do RPG e em especial pelo interesse em usar nossos registros como base para suas próprias aventuras. Pensar que podem existir grupos jogando em nossa ambientação, que eu mesmo criei a base e todos nós do grupo desenvolvemos, é o maior contentamento e lisonja que posso pensar em termos desse blog.

              Concluo com a certeza de que continuarei a jogar RPG como uma atividade espiritual e lúdica, formativa e artística. Talvez verificar essa validade de perder tempo jogando RPG enquanto adulto fosse meu objetivo em 2009, quando percebi que era um nerd muito sortudo porque minha mulher topava perder noites de sábado e feriados simplesmente para entrar no mundo da Phantasia e partilhar comigo o gosto pelo maravilhoso.

                       
            O Narrador,  Páscoa de 2013
       

2 comentários:

Fabi Dias disse...

Fiquei até emocionada e já estou com saudades de viver as aventuras como "Aurora Medici". Só tenho a agradecer pela paciência de ter nos ensinado a jogar e nos fazer mergulhar nesse universo maravilhoso do RPG. Muitos outros jogos, e pq não outros tomos desse mesmo jogo virão... e quem sabe, daqui há alguns anos, não estaremos ajudando nossos bambinos a preencher suas planilhas? ;-)
Te amo! Bjs
h, vou escrever um prefácio da Aurora...

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Muito bacana, fico mais uma vez honrado de ter participado desta aventura com você...

Abç,

Hugo Marcelo