8 de setembro de 2012

O DESPERTAR II


Nêmesis

No céu um pequeno ponto negro surgiu e vagarosamente foi tornando-se maior e maior à medida que se aproximava do solo. Então uma nuvem tenebrosa encobriu a formosa dama que sucumbia. De dentro da nuvem, uma voz doce, porém potente como um trovão, clamou:
-Μαρθα, Μαρθα [1], o que estás fazendo? Acreditas mesmo que encontrarás justiça na morte?
Inconsciente, permaneceu indiferente.
De dentro da nuvem, os contornos de uma mulher se definiam. Seu rosto possuía traços suaves, quase angelicais, mas seu olhar era severo como de um juiz. Uma espada em sua mão direita e uma ampulheta na esquerda. Um par de asas a mantinha suspensa a 2m acima do solo. Provavelmente se tratava de algum Djinn.
Ela então desceu até onde jazia o corpo da nobre Médici. Estendeu sua espada e desta saiu um raio de luz que atingiu a moribunda. Como mágica, a vida retornava ao seu corpo.
-Quem és tu? – Perguntou a dama.
-A pergunta é: quem és tu, Μαρθα?
-Eu sou Marta Médici.
-Quem, verdadeiramente, és tu, Μαρθα?
-O que queres de mim?
-Devia se perguntar o que posso te oferecer.
-Eu não compreendo. Quem és tu? – Perguntou novamente.
-Já fui chamada de “A Inevitável”, “Indignação”...
Ao dizer isso uma áurea vermelho-acinzentada ofuscou seus olhos.
-Já fiz reis poderosos se curvarem, já humilhei soberbos e altivos. 
Ao dizer isso, os olhos de Marta Médici se arregalaram. Tomada de pavor exclamou: -Não pode ser! A senhora é...
-Eu sou “A Vingança”. Eu sou Νέμεσις [2], eu sou Nêmesis!
Após alguns segundos de silêncio, prosseguiu:
-Não temas, Μαρθα. Há muito tenho te observado. Seu senso de justiça, sua indignação com a hybris que tomou conta de Florença. Bem aventurada és tu, Marta Médici.
-Ainda não compreendo. − Os olhos da jovem estavam banhados em lágrimas.
-Me refiro a seus sentimento por Arthuro Ricardi.
-Aquele Ricardi arrogante. Ele nem sabe que eu existo... Mas que importância isso teria para a senhora?
-Ninguém. Ninguém pode ser tão bonito, tão rico e tão nobre impunemente.
Agora os olhos de Marta Médici estavam cheios de esperança.
- Μαρθα, se tivesse que escolher entre vossa própria felicidade ou vingar-se de Arthuro Ricardi, o que escolheria?
Marta olha para o horizonte. Hesita um pouco, mas corroída pelo ressentimento dá a resposta que mudará para sempre sua vida.
-Eu escolho a vingança.
Nêmesis esboçou um leve sorriso cúmplice.
-Pois que assim seja. Erga-se Μαρθα, enxugue essas lágrimas e assuma seu destino.
Marta Médici se colocou de joelhos enquanto a deusa pagã declamava:

Tudo que se eleva acima da sua condição, tanto no bem quanto no mal, expõe-se a represálias dos deuses. Tende, com efeito, a subverter a ordem do mundo, a pôr em perigo o equilibrio universal e, por isso, tem de ser castigado, se se pretende que o universo se mantenha como é [3].

Então um raio atingiu Marta Médici bem no umbigo que a deixou desacordada. Passado algumas horas recobrou a consciência. Estava curada. Sem nenhuma cicatriz, mas em volta de seu umbigo, uma estranha inscrição, uma marca que para sempre a lembraria quem realmente era...


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[1] Marta em grego.
[2] Nêmesis em grego.
[3] Wikipedia.

2 comentários:

dklautau disse...

Doutor Hugo!! Que postagem é essa rapaz!!
Excelente texto, uma fineza impressionante. Cada vez mais essa simpatia pela vítima, como que preenchendo tanto o trágico quanto o remorso pela destruição de uma vida. Brilhante a escolha de Nêmesis como avatar da Ksirafai. E esse negócio de crise amorosa é plenamente compatível com a inveja da prima mais velha da Aurora.

De onde saiu aquela citação pagã? E esse umbigo com o símbolo Ksirafai? Como foi feito!

Uma das suas melhores postagens, sem sombra de dúvida.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Diego, fico feliz que tenha gostado. A citação eu encontrei na wikipedia, vou colocar a citação no texto.

O umbigo com o símbolo da Ksirafai fui eu quem o construiu no powerpoint.

Um grande abraço,

Hugo Marcelo