22 de março de 2012

Svetlana Olen ¥ Cap. 34 – Mutação

  
  
Toda aquela imagem de podridão e ausência de vida me fazia acordar durante as noites. Passei a ter pesadelos demoníacos e fúnebres. Sonhos com danças, carnes frescas, velas e sangue jorrando, risos macabros, ratos comendo uns aos outros, mascaras no chão...



Dor e um estranho prazer me faziam despertar com muito suor no corpo e batimentos fortes a ponto de sentir nas minhas pernas o tremor de meu coração. Aquele infeliz tinha de certa forma me corrompido, estuprado meus desejos e violentado minha alma. Tinha feito uma outra pessoa em mim. 

Um peso enorme estava ocupando meu corpo e mente. Me senti traída pelos meus próprios princípios e desejos. Sofria, mas ao mesmo tempo contemplava aquilo tudo. Era sórdido, e muito apetitoso.

Estava difícil tentar esquecer algo tão próximo da morte. Lembrava-me de Sra. Ausra, meus amigos e todos aqueles que deixei em Kupala e da vergonha que sentiria se eles soubessem o que eu cheguei a conhecer! Todos depositavam a esperança e fé em mim. Os deuses olhavam e me julgavam.

Definitivamente, eu já não era mais a mesma. Sra. Ausra talvez não me reconhecesse. Ela perceberia por um olhar ou por um cheiro tudo aquilo que me aconteceu. Talvez ela sentiria vergonha do que me criei e me virasse as costas. Por certo, não conseguiria esconder de minha quase mãe, o fardo que terei que suportar de agora por diante.

“Talvez serei expulsa de minha cabala”, pensei. Eu, agora um sangue sujo, corrompida pela morte e envenenada por desejos incontroláveis e acompanhado de anseios! 

Como tudo aquilo aconteceu? Como fui capaz de me entregar? Como ele foi capaz de ser tão cruel?

Lembro-me do meu renascimento. Renasci na água, quando perdi minha pele, cabelo, carne. Lembro-me também da luz e Freia me guiando. Me doutrinando. Naquela escuridão, senti o amor novamente. Senti a vida pulsando. Mas até então, não havia percebido que havia algo mais em mim: uma gota de veneno talvez deixado por ele, ou talvez, eu mesma tivesse criado.

Tenho medo de isto me intoxique aos poucos. Para isso, terei que lutar e sobreviver a ele todos os dias. Dedaleanos não são nada comparados ao meu pior inimigo: eu mesma.

Terei que domar meus impulsos, pensamentos e sonhos. Terei que sobrepor a minha missão acima de mim, pois foi para isto que sobrevivi. Para combater esta outra verbena que há dentro de mim. Nada inocente, nada doce, muito menos pura. Uma verbena que seja a cobiça de Petronius. A cobiça do fedor que reinará se a força da vida não sobreviver.

Torço para que essa verbena adormeça. E que nunca mais desperte. Ou pelo menos até que chegue a hora certa...
  
  

2 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Muito bacana esta postagem.
Petronius tem sido um personagem muito instigante...

Hugo Marcelo

dklautau disse...

Sim, de fato Petronius se tornou um dos principais antagonistas da cabala, juntamente com os dedaleanos, os vampiros, lobisomens e feéricos!

A Svetlana ainda tem que suar muito para poder matar o Petronius! Isso vai render boas histórias.