22 de março de 2012

Olho de cristal ¥ O Reencontro: outubro 1404 Sessão 03/10/10 Parte II

  
  
Era um galpão muito grande que aparentemente parecia de fora abandonado. Apesar de estar muito próximo da Ponte Vecchia, não me lembro de tê-lo visto antes.

Olhei para Abdul e decidimos entrar para o tal leilão. Depois de termos nos identificado no local, meu corpo entrou em um transe estranho que ficou meio adormecido. Tive muita dificuldade em controlar meus pensamentos e movimentos.

Ao olhar para baixo, lembrei-me das arenas na qual passamos antes de chegarmos em Florença. Mesas estavam espalhas, cadeiras ao redor delas e muito barulho no local.
O cheiro estava bem característico de como aquelas áreas cujos produtores de queijo gorgonzola deixam seus queijos coalhando, putrefando...

Ao levantar minha cabeça, percebi camarotes de compradores do leilão. Pingos de sangue caiam destas áreas e gotejavam a cabeça dos que estavam abaixo dela. Na minha inclusive, senti como pequenas agulhadas todas as vezes que me tocava.

Ao ser guiada pelo olhar de todos aqueles na nossa volta, percebi em frente da arena, uma grande palco protegido por guardas monstruosos bem armados. De lá, saía um cheiro de carne podre defumada que entorpecia a todos no local. Discretamente, cobri meu nariz com a veste que havia por debaixo de meu manto.

Fomos guiados a sentar em uma das mesas. Abdul e eu nos entreolhamos ao aproximarmos das cadeiras, que as pessoas ao lado, lembrando zumbis se empanturrando de carne, só devoravam, sem mesmo notar a nossa presença.

Após três marteladas, um senhor obeso ao meu lado gritou é minha! Saiu correndo com suas banhas saltitando de um lado para o outro como se estivesse em câmera lenta. Ao aproximar da carne, ele a abraçou e lá mesmo sentado, começou a comê-la em ambos sentidos da palavra. Enquanto sua boca sangrava com todo aquela carne, ele gozava em plena alegria.

De repente, um deles gritou: “Iniciaremos agora a iguaria mais esperada: A carne humana!”. Muitos, ao ouvirem isso, pegaram seus baldes individuais e vomitavam tudo aquilo que haviam comigo, porque já salivavam com o desejo do alimento!

Ao sentarmos, Albdul e eu recebemos o balde, cerveja e vinho para acompanhar nosso banquete. Confesso que isso não me abriu o apetite e muito pelo contrário, já imaginava o que eles poderiam ter posto na bebida para que facilitassem seus desejos anorexos.
A gritaria aumentou e ao me contorcer o olho, percebi lá em cima, Pedro, batendo palmas, rindo e lançando um olhar sedutor para mim.

Abdul me olha inconformado e me avisa que está com dificuldades de exercer seus poderes para impedir tudo isso. Nesta hora, me tremi.

Foram alguns minutos em meus pensamentos revivendo a violação que ele me fez passar. Abdul foi quem me fez voltar para a realidade. Ao me dar uma cotovelada, abaixei a cabeça e percebi que já haviam pessoas lá na frente, comendo braços, pernas e cabeças de uma mulher, criança e um recém nascido. Este ultimo, vendido por um preço altíssimo.

Ao olhar para os lados, todos estavam com as pupilas dilatadas, embriagadas de desejos semelhante naquele dia de minha “morte”. Foi aí que ao olhar no meio do incenso e da fumaça que tocavam o lustre acima do palco, percebi o espírito da onça gritando de fome e desejo. 

O horror já era insuportável e gritei: “Minha mão para aquele que a pagar mais! Observem o quanto de sangue há nela. O quanto de vida tem pulsando...”. O gordo anfitrião que até então estava apoiado no seu trono, se levanta e dá o primeiro lance! Petronius se levanta e aumenta o lance. Em seguida Abdul entra no páreo para tentar dispersar o leilão da carne humana.

Gritos e excitação davam para ser sentido do lado de fora do galpão. As bebidas caiam sobre as mesas pois todos batiam suas mãos esperando a hora da entrega do prêmio.
Depois de vários lance, Abdul ganhou. Pegou sua cimitarra e gritou que ele mesmo a arrancaria para delírio do público, mas os soldados se aproximaram dele com muita desconfiança.

Foi então que cravei com meu punhal em minha mão. Levantei minha mão e fiz escorrer o sangue até meus lábios. Daí então bebi e levantei para todos verem e se distraírem! Inclusive Petronius ficou admirando e lancei um sorriso com dentes banhados pelo sangue!



Foi nesta hora, ao perceber minha encenação, Abdul aproveita e crava sua cimitarra no pilar onde está o incenso e a onça no lustre urge...
  
  
  

3 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Haaa... Que saudades dessa sessão de RPG. Foi a melhor de todas!!

Hugo Marcelo

Camila Numa disse...

Foi pra nós dois Hugão!

dklautau disse...

O pecado da gula... Fraqueza pessoal e por isso mesmo um drama de consciência transposto radicalmente para a narrativa! Que bom que gostaram.