17 de abril de 2011

Florença by Night – A Música


-Aceita mais um chá, Imam?
-Não pense que seu chá irá justificar sua conduta, Abdul.
-Essa nunca foi minha intenção.
-Então, voltemos ao assunto. Por que você fez “acordos” com carniçais? Por que se sujeitou aos caprichos de vampiros? Por que Florença está de joelhos diante dessas “criaturas da noite”?
-Jafar, é que...
-Não sabes que são seres amaldiçoados?
-Sim, Imam, mas...
-Suas desculpas são inaceitáveis, Abdul. Começo a questionar sua lealdade para com os Ahl-i-Batin.



Acordo! No céu a lua cheia testemunha meu infortúnio. Minhas roupas umedecidas pelo suor emolduravam meu corpo. Meu rosto refletia a luz da lua, emprestando-lhe seu brilho azulado. Era apenas um sonho, ou não seria apenas um sonho? Hoje, o Imam Jafar do Cray de Constantinopla chega em Florença. Só me resta esperar o dia amanhecer...
  
-Assalam-u-Alaikum, Ishmael.
-Waalaikum salaam, Abdul. Tudo certo para a recepção de Jafar?
-Sim, tudo pronto.
-Ótimo! E os magos? Confirmaram presença?
-Não, nenhum deles.
-Tens certeza que receberam o convite?
-Pedi aos franciscanos que o entregassem em mãos!
-Talvez seja melhor assim. E as fadas?
-Sim, confirmaram presença.
-Que bom... Vamos abrir o portal?
-Sim, claro...
Abdul e Ishmael fazem uma magia em conjunto. Se conectam à mente de Jafar, o qual agradece e orienta os magos sobre sua localização exata. Depois abrem o portal: o símbolo dos Batini aparece como que esculpido em alto relevo na parede, e lentamente se transforma em um “túnel de luz”, pelo qual se vislumbra a silhueta de um senhor de barba branca com seu cajado.
-Ahla u sahla, Jafar [1].
-Assalam-u-Alaikum, Ishmael. Os anos lhe foram gentis.  –  Os dois se dão um longo e forte abraço.
-Deixe-me apresentá-lo à Abdul. O mais novo Batini de Florença.
-Assalam-u-Alaikum, Jafar.
-Waalaikum salaam, Abdul. Como você cresceu!  –  Abdul olha para Jafar sem entender o que ele quis dizer, mas retribui com um sorriso.  –  Ishmael tem me falado muito bem de você.
-Ishmael é muito generoso...
-Modéstia é sempre um excelente adorno.  –  Risos.  –  Li seus relatórios. Florença anda muito agitada nos últimos meses...  –  Mais risos.
-Gostaria de um chá, Imam?
-De que?
-Pétalas de rosas.
-Sim, claro... Hum, que delícia.
-E a guerra, Imam?
-Os cruzados vêm resistindo bravamente, tenho que admitir. Mas a vitória final é só questão de tempo. Mais alguns anos e estaremos livres da opressão do império Bizantino e da “Ordem da Razão”. Vocês, aqui na toscana, vivem uma realidade bastante particular. Parece que existe um diálogo e até um certo respeito entre Magos e a “Ordem da Razão”.
-Temos um inimigo em comum. A luta contra os nephandi nos uni, Jafar. Mas, infelizmente, é apenas circunstancial.  –  Disse Abdul sem esconder seu pessimismo.  –  Nos consideram um mal necessário.
-Entendo... E os “cainitas”?
Um franciscano bate na porta e anuncia que os convidados já chegaram. Todos se direcionam para o refeitório especialmente preparado para a ocasião: uma grande mesa ornamentada com flores e frutas na qual estão presentes Ishmael, Abdul, Imam Jafar, rainha Ar-Iohan e sua comitiva de 10 feéricos, o abade franciscano com mais cinco monges e cinco representantes da comunidade islâmica local, em um clima de amizade e descontração.
-Rainha Ar-Iohan, deixe-me apresentá-la ao Imam Jafar, do Cray Batini de Constantinopla.  –  Disse Ishmael na qualidade de anfitrião.
-Como vai, Imam?
-Saudações, alteza. Abdul me contou da batalha pelo Óleo dos Thuata de Danaan.
-Os magos nos prestaram um grande serviço. Somos muito gratos.
-Ficamos felizes em poder ajudar.  –  Interveio Abdul.
-E como vai o forte feérico da Santissima Annunziata?
-O nosso Balefire vem atraindo changeling de toda Europa. Cada dia somos mais numerosos.
-Ótimo!  –  Respondeu Jafar amavelmente.  –  Saiba que nós Batini temos muito carinho pela coorte seeli.
-Obrigada, ficamos muito satisfeitos de termos aliados tão nobres.  –  Respondeu a rainha.
Três franciscanos organizam a mesa, servem algumas bebidas, sucos, vinho e água. Começam a servir a salada.
-Soube do conflito que tiveram com alguns judeus. Saibam que seus irmãos do oriente estão unidos a vocês nesse momento tão difícil.
-Obrigado, Imam Jafar. Nós, representantes da comunidade islâmica de Florença, ficamos gratos por sua preocupação.
-Conseguiram identificar os responsáveis pelo ataque à mesquita?
-Aparentemente foram todos mortos em um conflito no mesmo dia. Mas não descansaremos até que o último criminoso seja responsabilizados por seus pecados.
-Ótimo, mas me parece que também ouve excessos por parte de nossa comunidade...
-Sim, é verdade. Xeque Yasir e alguns irmãos mais exaltados conduziram uma jihad de forma autônoma.
-Isso é muito sério. É muito tênue a linha que separa a justiça da vingança...
-Sim, é... Para evitar que isso volte a ocorrer estamos tentando estabelecer um tribunal da Sharia em Florença.
-Me parece uma idéia bem interessante. Pode ser de grande ajuda para a comunidade local. Mas, ainda, sugiro que se estabeleça um dialogo com a comunidade judaica...
-Nós também pensamos dessa forma. Estamos articulando um espaço para o diálogo entre nós e as demais religiões monoteístas.
-Tenho certeza que Abdul e Ishmael ficarão felizes em ajudar.
Neste momento alguns franciscanos começam a servir o prato principal e a encherem os cálices...
Ishmael se levanta e profere um pequeno discurso:
-Gostaria de agradecer a todos por terem vindo nos prestigiar, em especial rainha Ar-Iohan e seus embaixadores. O imam Jafar é o responsável pela mesquita de Constantinopla, foi muito importante na minha vida e na minha formação. É a primeira vez que vem ao ocidente e nos sentimos honrados por sua presença, ainda mais neste momento tão delicado. Como todos sabem, Florença foi palco de uma terrível batalha contra os adoradores de Shaitan. O Imam veio pessoalmente expressar sua solidariedade. Gostaria de propor um brinde ao Imam Jafar, sinta-se muito bem vindo, e um brinde à Florença e que Allah (swt) a conduza à um futuro de paz, liberdade e prosperidade.  –  Todos levantam seus copos e brindam.
Após o jantar, Abdul anuncia uma pequena apresentação de canto gregoriano e música renascentista como entretenimento para os presentes. Adentram o recinto dez monges beneditinos. Neste momento, Jafar parece desconfortável, como se algo o incomodasse. Ele pega seu cajado e atentamente observa cada movimento de um monge alto, magro, de olhos fundos e sombrios e de voz particularmente grave. Os magos de Florença não entendem a reação inesperada de Jafar, até ‘examinarem’ magicamente aquele monge.
Abdul ficou desconcertado, sem saber o que fazer. Pedir desculpas à Jafar? Interromper a apresentação? ‘Desaparecer’ com aquele monge? Opta por não fazer nada. Passado alguns minutos, percebe a emoção que sentem todos os convidados e quando entoam a canção final, lágrimas brotaram do rosto do Imam Jafar, emocionado.
Impressionante! Como um serviçal de vampiro consegue entoar uma melodia de tamanha beleza?


(Ouça a música que emocionou o Imam Jafar)





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[1] “Seja bem vindo” em árabe.

6 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Abdul está profundamente chateado pelos magos de Florença terem simplesmente ignorado seu convite...

dklautau disse...

Arturo respondeu! Está presente.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Arthuro respondeu quando?

dklautau disse...

Respondeu agora.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Como diria meu irmão: antes tarde do que mais tarde...

:-)

Hugo Marcelo

dklautau disse...

Fala Hugo.
Cara reli o post. Muito bom. As relações históricas entre os bagi de Florença, o histórico dos Batini e os conflitos com os dedaleanos, a recuperação de NPC´s feéricos, assim como o mote contra os cainitas. Uma retomada bem enriquecida de todos os temas de nossa crônica.

Estou ansioso de saber como se desenrolará o conflito entre os batini e os tremere!

Parabéns pelo texto