20 de abril de 2011

Florença by Night – A Narguilé

   
Após o jantar, o Imam Jafar agradece a recepção, se despede dos convidados e se retira para o interior da Santa Croce juntamente com Ishmael. Abdul fica ciceroneando os convidados por aproximadamente 45min e então se dirige para a sala de reuniões.
Encontra um pergaminho de aproximadamente 4m de comprimento, dobrado ao meio flutuando ao lado de uma grande mesa, sobre a qual repousavam vários mapas. Ishmael explicava para Jafar a geopolítica da Europa, da região da Toscana e da cidade, auxiliado por uma régua e um compasso que velozmente se movimentavam, obedecendo os comandos mentais deste mago.

-Caro Abdul, por favor, aproxime-se.  –  Disse Jafar sorridente enquanto fazia um gesto com sua mão.  –  Estávamos conversando sobre o ocidente. Essas cidades modernas são tão diferentes, tão compactas.
-Sim, é verdade...
-Florença é uma cidade magnífica!
-Obrigado, Jafar. É muita gentileza sua.
-Onde estão os outros magos? Gostaria que eles participassem dessa reunião.
-Eles não foram localizados, Imam. Estão completamente exauridos, provavelmente descansando.
-É compreensível. Só espero que eles não se sintam excluídos...
-Fique tranqüilo. Eu, na qualidade de diplomata deste Cray, sou oficialmente representante dos magos de Florença em ocasiões como esta.
-De onde eram aqueles monges que cantavam tão esplendidamente?
-De um mosteiro beneditino na zona rural de Florença.
-Existem muitos cainitas nas cercanias de Florença?
-Gostaria de chá de pétalas de rosas, Imam?
-Sim, claro. Obrigado, Abdul.
-Por que o senhor não experimenta estes biscoitinhos? Foi minha esposa Amineh Nadira que fez para o senhor, espero que estejam à seu gosto.
-Ah, sim... Obrigado, Abdul.
-Bem, Jafar... A verdade é que não temos certeza.
-Como assim, Abdul?
-Os vampiros estão por toda a parte. São como erva daninha, a gente arranca, elas crescem, a gente arranca, elas crescem de novo. Não tem jeito, são uma praga.  –  Interveio Ishmael.
-Estou muito preocupado com esta questão. Sabemos da importância estratégica de Florença. Sh’zar virá a qualquer momento, precisamos estar preparados.
-Eu entendo sua preocupação, Imam. Mas, sem querer de forma alguma negar o problema, acho que temos a situação sob controle.
-Vejamos aqui...  –  Jafar faz um gesto e o pergaminho se aproxima. Ele coloca seus óculos e começa a ler suas anotações em um tom de voz desafiante, porém paternal.  –  Bem, Abdul, o senhor me relatou alguns fatos muito curiosos. Em abril/1.401 um punhal de rubi e outros artefatos demoníacos foram leiloados por um vampiro, essa informação procede?
-Sim, Imam. É verdade.
-Que ousadia! Normalmente se valem de serviçais, não aparecem em público desta forma. Neste mesmo dia, o Mercato Nuovo foi destruído e o senhor feito prisioneiro de vampiros.  –  Jafar olhou para Abdul como se pedisse sua confirmação. Abdul responde positivamente com a cabeça.  –  Para que fosse libertado, a maga Aurora foi compelida a beber o amaldiçoado sangue vampírico, certo?
-Sim, mas Jafar...
-Aliás, com o intuito de reaver este punhal maligno, o senhor também bebeu sangue vampírico, correto?  –  Abdul permanecia de cabeça baixa apenas fazendo sinal de positivo com a cabeça.  –  Allah (swt) em sua magnificência protegeu o senhor e a senhora Aurora de se tornarem “serviçais” de vampiros.
-Madre Silvia os livrou do sangue cainita.  –  Disse Ishmael não muito confiante.
-Em várias ocasiões um monge, o qual o senhor Abdul descreve como “provável carniçal de Tremeres”, propôs acordos no mínimo “ambíguos”, certo?
-Tudo que fiz foi pensando no bem estar de Florença.
-Não tenho dúvidas quanto a isso, Abdul... Para minha surpresa, conversando com os franciscanos soube que um deles se uniu aos Tremere por “laços de sangue”, participando de uma conspiração contra a vida de um inquisidor.
-Bem, Imam, não sabemos se eram Tremeres.
-Um morador do Cray Santa Croce, carniçal de vampiros.  –  Jafar olhava para Abdul com desaprovação.
-Caro Jafar, eles eram poucos e recém-despertos. Nós, “Os Primeiros Cavaleiros”, não conseguimos ajudá-los.
-Eu sei, Ishmael. Compreendo perfeitamente.
-Naquele momento nunca imaginávamos que os vampiros fossem tão ousados.  –  Disse Abdul tentando se justificar.
-Bem... Pelo que entendi, em pelo menos duas ocasiões foi verificada a aliança de vampiros com os nephandi.
-Sim, Jafar. Na batalha contra Etrigan e na luta contra o “2o. círculo” da maldição de Dante.
-Vampiros infernalistas. Isso é muito sério!  –  O Imam retirou seus óculos, se voltou para Abdul e olhou diretamente para seus olhos, como se conversasse com sua alma.  –  E agora, um vampiro Capadócio, do “Clã da Morte”, achou que poderia instrumentalizar um espírito infernal para seus propósitos particulares. Ingenuidade inferior apenas a sua arrogância. Teria submergido Florença e seus morados nas trevas do inferno se não fosse o empenho heróico de magos e “dedaleanos” numa batalha de tal proporção que destruiu uma igreja cristã.
Abdul abaixa sua cabeça, envergonhado. Ishmael faz um movimento com sua mão esquerda e sua narguilé aparece ao seu lado. Todos permanecem em silêncio por alguns segundos. Ishmael dá uma longa tragada, olha para Jafar e estende uma de suas mangueiras em sua direção, depois faz o mesmo para Abdul.
-Obrigado, Ishmael. Gosto muito de fumar após as refeições. Já te contei que estão plantando tabaco aos pés do monte Qaf?  –  Risos.
Os três fumam e após 10min uma atmosfera de paz e tranqüilidade os envolve.
-Caro Jafar, realmente, acho que não demos a devida atenção aos vampiros e estas “criaturas da noite” se excederam. Mas saiba que agora estamos mais poderosos e com mais experiência. Estes fatos não ocorrerão no futuro.
-Acho que a questão não é essa, Abdul.
-Como assim?
-Para mim a situação é muito mais grave. Os cainitas estão a milênios na Europa se articulando, fazendo conchavos e escravizando com seu maldito sangue qualquer pessoa que considerem importante, incluindo reis, militares de alta patente, clérigos e, mais recentemente, embaixadores, banqueiros...  –  Fez uma pausa para fumar.
-Acho que entendo o que o Imam quer dizer.  –  Disse Ishmael aliviado pelo rumo que a conversa estava tomando.
-Apesar de ter um Cray com magos poderosos e dedicados, uma “Ordem da Razão” bem estabelecida e um “tribunal da inquisição”, os vampiros ainda dominam Florença. Isso é inadmissível!
Abdul olha para o Imam, dá uma tragada profunda, olha para o chão como se estivesse a examinar sua história e exclama:
-Caro Imam Jafar, suas palavras são sábias. Honestamente, fui prisioneiro de Tremeres por vários dias, não fui morto graças a misericórdia de Allah (swt), mas pior do que isso, tive minha mente invadida e dominada por essas “criaturas da noite”. Nosso irmão de cabala, Arthuro Ricardi, quase foi morto por gárgulas guardiãs dos Tremere que habitam a Basílica di San Miniato al Monte. Eu e senhora Aurora fomos obrigados a provar o amaldiçoado sangue dos vampiros. Esses seres são muito espertos. Têm a seu favor o tempo e a sabedoria das gerações. Sabem quando atacar e quando recuar. Normalmente saem de suas tocas quando estamos demasiadamente ocupados com outros assuntos urgentes. Nada me daria mais prazer do que eliminar lycans e vampiros de Florença, ou melhor, de toda Toscana.  –  Abdul faz uma pausa, se põe de pé, seu olhar parece estar em chamas, um vento quente começa a soprar dentro da Santa Croce que arrasta os mapas para o chão. Abdul parece não ver o que está acontecendo a sua volta. Sem se aperceber, já estava flutuando a meio metro do chão.  –  Portanto, Jafar, Imam do magnífico Cray Batini de Constantinopla, basta uma palavra sua que terei a honra de conduzir uma Jihad contra esses vampiros. Prometo que não descansarei até que todos eles paguem por seus pecados!
Ishmael olha para Abdul, abre um imenso sorriso e olha pra Jafar que continua fumando impassível e afirma: que Allah (swt) proteja essa juventude, Bismillah.
-Abdul, acalme-se. Porque não se senta. Tome uma xícara deste seu chá maravilhoso.  –  Disse Jafar paternalmente.
-Hã... Sim, claro.
-E coma um biscoitinho de sua esposa, está delicioso.
-Grato.
-Agora melhorou, Bismillah...  –   Diz Ishmael.
-Caro Abdul, estou impressionado com sua perspicácia. Você entendeu o modus operandi dos vampiros e porque são tão perigosos.  –  Abdul sorri sem entender onde Jafar quer chegar.  –  Portanto, eu te pergunto: sinceramente, achas mesmo que esta é a melhor forma de lutar contra os vampiros? Com o uso da força, de nosso poder mágico, acreditas mesmo que conseguiríamos destruir inimigos tão argilosos?
Abdul mastiga mais um biscoitinho e com a mão um pouco trêmula prova de seu chá.
-Não, Imam. Se fosse tão simples não teríamos mais um único vampiro no oriente.
-Boa resposta!
-Mas, então Imam, o que deveríamos fazer? Qual a melhor forma de lidar com os vampiros?
-Precisamos tentar ser mais espertos que essas “criaturas sombrias”.
-Faz sentido...
-Agir com prudência. Usando a força quando necessário, mas principalmente precisamos de uma estratégia que permita quebrar a hegemonia dos cainitas a médio-longo prazo.
-Sim, Jafar, é isso!  –  Abdul estava entusiasmado.
-A “força” vence batalhas, mas como vencer a guerra?
-Por favor, Jafar, nos diga como.
-Há um grande “desequilíbrio” em Florença. Acho que precisamos acrescentar novos atores a este cenário, algo que permita que a balança penda pro nosso lado.  –  Abdul olhava para Jafar quase que “hipnotizado”.
-Sim, sim, Bismillah...
-Às vezes, situações extremas, exigem medidas extremas; por assim dizer, pouco ortodoxas.  –  Imam Jafar sorri misteriosamente.  –  Acho que precisamos de “ajuda profissional”, auxílio de quem conhece profundamente os vampiros porque os caçam a milênios.
-Eu não compreendo, Jafar.  –  Abdul olhava para o Imam com os olhos arregalados.
Jafar se coloca de pé apoiado em seu cajado. Olha para Abdul e bate seu cajado no chão que faz estremecer toda a Santa Croce.
-Com a sua licença, vou te mostrar a única coisa que os vampiros temem além do sol.
A partir do ponto onde seu cajado feriu o chão se desenhou o símbolo dos Batini em baixo relevo com aproximadamente 3m de diâmetro. Jafar se afasta e a mandala começa a girar em velocidade crescente e a “afundar” como se escavasse o solo, formando um círculo escuro no chão. Passado alguns instantes, duas pessoas saltam para fora daquele “fosso-portal”. Elas olham para Jafar, o cumprimentam com um aceno de cabeça, Jafar responde da mesma forma, depois se voltam para o fosso. Do fundo daquela escuridão saltam mais três pessoas: uma mulher e um homem e no meio, como que amparado por estes, um ancião.
-Eu não acredito, Bismillah.  –  Ishmael estava atônito.
Abdul olha para Ishmael e depois fixa seu olhar nos recém-chegados. Estava tão estupefato que tinha dúvidas se aquilo tudo era real. Imam Jafar olha para os magos e dá uma gargalhada como se fosse a coisa mais hilariante desse mundo.
Depois daquele dia, Florença nunca mais seria a mesma...


2 comentários:

dklautau disse...

Dr. Hugo,

Os dialogos são impagáveis. O lance da repetição do biscoitinho da mulher do Andul e do chá são hilários. A intimidação de Andul diante do imam é perfeita, me senti num conto das mil e uma noites!

A recuperação da memória do conflito com os cainitas foi de uma pesquisa louvável, e me senti orgulhoso de ter construído essa história com nosso grupo. Quase como uma nostalgia de minha própria história.

A chegada dos cainitas assamitas, e a concepção da natureza dos conflitos entre magi e dos tremere, assim como as dubiedades e mistérios acerca dos acontecimentos demonstrou uma força narrativa empolgante. Construímos uma narrativa fina nesse jogo.

Obrigado pelo enredo. Uma narrativa da renascença que queria ter lido que agoravejo se desenrolar. Obrigado!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Nosso jogo tá cada vez melhor!
Mais uma vez obrigado pela mestragem...

Hugo Marcelo