20 de janeiro de 2011

Svetlana Olen ¥ Cap. 9 – A Grande Deusa Mãe e a Santa

¥ Svetlana Olen ¥ 

Pouco tempo depois da aparição de Embry em Kupala Alka, a cidade começou a se agitar cada vez mais. As minhas irmãs estavam muito preocupadas com toda a possibilidade da aparição de Despertos e não Despertos que causaram todo o mal próximo de nossos domínios. Ritos e profecias foram realizados no Cray, ervas e essências eram constantemente colocadas e oferecidas a Gaia em nosso altar. Foi aceso também o fogo no altar do Deus do Sol, para honrar e proteger os nossos homens que a muito tempo não vinham nos visitar.
Cerimônias eram realizadas também por aquelas dentre nós eram mais jovens e virgens, assim como sacrifícios com animais e sangue humano. Três das irmãs Lickunas estavam na entrada entre os nossos domínios e o local onde Embry havia indicado a Sra. Ausra o encontro e queima do corpo. Elas cantavam e rogavam para que fosse fechado o ciclo interrompido de forma brutal a vida do Garou.
As irmãs Lickunas
  
Meu pai havia chegado de uma de suas viagens e relatou o caos que toda a Europa estava sofrendo. Ele mesmo deixou de acreditar em Deus, mas portava consigo uma cruz no peito, afim de evitar problemas durante o translado. Obrigou-me mesmo a aprender um daqueles cândidos em língua antiga para que caso um dia fosse parada e interrogada, saberia fazer. Não compreendia como pessoas que juravam ser boas, e rezarem para um único Deus, matavam como segurança pessoas inocentes.
Era duro aceitar que teria que me portar e vestir de forma adequada aquela cultura que me causava náuseas. Mas era necessário. Sra Ausra disse-me que em breve necessitaria com muita urgência realizar uma missão e representar o nosso Cray em uma terra distante. Como era aquela mais adequada, por me camuflar muito bem, possuía o conhecimento e a facilidade de línguas, fui escolhida para tal.
Uma manhã, quando acompanhava meu pai em uma de suas negociações no centro da cidade com os tecidos recém chegados de Verona, presenciei algo fora do comum. Estamos na Casa dos Korniakt, enquanto tomávamos chá, ouviu-se gritos e passos na rua. Nos dirigimos na estreita janela da sala para ver o que ali acontecia. Eram dezenas de pessoas andando como em uma procissão. Vi uma daquelas cruzes enormes sendo portada por um cavaleiro e uma figura com cabeça baixa e sendo arrastada por outro cavaleiro. Várias pessoas foram sendo chamadas para acompanhar o que ali aconteceria.
Meu pai imediatamente me puxou e disse que precisávamos ir embora. Era muito agitação para fazer negociação. Sr Korniakt saiu e foi correndo até o porto para acompanhar a movimentação e gritando "Viva! Viva!". Na saída da casa, era impossível fazer o caminho inverso. Era como tentar atravessar o rio que acabou de acorda e que estava com a água dos gelos das montanhas fluindo com força.
No final, nos encontramos na praça do porto vendo pessoas gritando e jogando tomates, pedaços de qualquer coisa que encontravam na pessoa. Apareceram três figuras curiosas: um senhor gordo com uma espécie roupa que mais parecia um vestido, dois outros com armaduras tão brilhosas quanto o cabelo de Sra. Ausra pela manhã. Haviam também duas figuras com chapeus estranhos que também usavam vestidos.
Ao subir em um palanque ali preparado com toras de madeiras, fiquei estupefata. Não havia somente um homem, mais outros que estavam amarrados em troncos de madeira como também em cruzes, sendo pendurados como o mesmo homem que meu Pai carrega no peito. 
Ao observar os rostos daqueles homens, me fixei em um. Reconheci o do cabelo alvo. Aquele mesmo que sembrava o jovem de meu primeiro beijo e primeira noite. Era ele, não havia dúvidas. Meu Amor estava lá. Então um fogo ardente, mas desta vez de medo e perdição acendeu em mim. Nessa hora o tempo começou a fechar. Rajadas de ventos fortes começaram a passar por mim. Pessoas começaram a se abaixar e o clima foi ficando mais estranho...
Senti um calor e um som querendo se liberta de meu corpo e no exato momento que ia grita, ao vê-lo sendo amarrado no troco, meu querido Pai, segurou-me forte e tampou minha boca. O Velho homem alvo levantou o olhar e me encontrou na multidão. Sem saber como, foi possível perceber que não poderia fazer mais nada.
Ao seu lado, o gordo homem estava rezando, mostrando a cruz que emitia uma luz forte que mexeu até mesmo com o meu corpo. Os outros dois, que estavam ordenando outras pessoas para limparem a área, se viraram e perceberam algo e olharam em minha direção. Mas o meu Ele começou a sussurrar palavras com que ventos foram aumentando e trovões aparecendo. Os guardiões deslocaram a visão e foram até ele.
Com objetos estranho, e com o movimento do vai e vem, o Velho foi se estremecer e vomitando. Meu pai que já não aguentava mais, foi se afastando da multidão, horrorizado com toda aquela cena. Apesar der estar sendo puxada por ele, meus olhos continuavam a insistir em olhá-lo. Minhas lágrimas foram interrompidas pela brutalidade com que aquelas pessoas o tratavam. Ficou claro também da sua ausência de sua luta com toda aquela injustiça da sua parte. Eu nada poderia fazer. Nada.

O último instante que o vi, antes de dobrar a rua foi o fogo subindo e queimando seu doce rosto desacordado. O grande vazio tomou conta da minha alma.
Ainda dentro da carruagem, pude ver de longe, entre a fumaça negra e viva, as linhas de sua alma explodindo e se partindo em milhares de foligem. Eu sangrava.
Meu pai, me abraçou e segurando o pingente de seu colar disse: “Esta é a Santa. A Santa Igreja que julga verdadeira acima do poder divino. Se houver Céu, então há de ter inferno. Que a Terra se abra e engula esses homens...”
Que a Grande Deusa Mãe nos proteja...

13 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

#Emocionante.

Grande Camila,

Gostei muito desta postagem. Eu quase enxerguei a Svetlana sangrando desesperadamente... Que emoção!!!

Confesso que não entendi bem os detalhes da segunda metade do texto. Depois vc me explica...

Hugo Marcelo

P.S. Gostei da interação com a "Ordem da Razão". Vou plagiar vc e fazer o mesmo... Hehehe

Camila Numa disse...

Galera, vão me perdoando pelos erros de português, repetições de palavras.
O Filipe me prometeu que a partir de hoje, irá corrigir meus textos!
hahahahahahahaha

Ai Hugão, vc me plagiando?! Que nada, teus textos vão ser muito bem descritos e detalhados!

Kd de os teus textos? Precisamos dos teus pontos de préludio tb ou se não morreremos!
=P

Hugo Marcelo Barbosa disse...

#CriacaoPersonagens

Grande Camila,

Eu ando meio sem imaginação estes dias. Talvez escreva um texto sobre um encontro inesperado do Abdul e Hasancom a Ordem da Razão, mas ainda não sei bem como...

Eu estava pensando na "geografia" do paradigma dos personagens: Svetlana, vive numa floresta, uma riqueza de animais, plantas, flores, se tornou uma Verbena com uma ligação muito forte com a natureza, é emotiva e sentimental; já Abdul, vive no deserto, monotonia da paisagem, areia, camelo, sede, fome... Se volta para um Deus absoluto e transcendente, seu prelúdio é objetivo e quase austero...

O que vc acha disso Diego?

Hugo Marcelo

dklautau disse...

No que virou essa inquisição. Da iniciativa de pegar padres pedófilos, se tornou a velha inquisição, protótipo de todas as ditaduras, autoritarismos e estruturas de pecado. De fato eram as dores de parto da modernidade.

Me emocionou muitíssimo sua descrição, D. Camila. Continue assim.

A Svetlana está se tornando uma magus muito especial. Tenho absoluta certeza que com esses dez pontos dignos e justos (que venham mais!), será a referência para a cabala.

A gravura que você escolheu para ilustar a inquisição é do século XVI, no XIV ainda não existam espetáculos tão oúblicos assim, mas já demonstra o espírito da aliança entre o Estado e a Inquisição.

A descrição das emoções e da carga espiritual estão em harmonia como uma estátua do barroco! Prazer e desespero expressos numa imagem com boca aberta e intensa expressão.

Parabéns!

dklautau disse...

Ah sim, diga para o Felipe que estou esperando o prelúdio do Heráclito, um ano já está passando, (ele entrou em 06 de março de 2010) é o nosso limite!

Hugo, de fato a gegrafia da religião, como condicionador da concepção religiosa é pertinente nesse caso. Como você leu mircea Eliada, as religiões tribais animimstas, em todos os continentes, costumam sacralizara natureza porque ela é abundante e viva. Os povos do deserto, ou das geleiras como os vikings e esquimós, tem a tendência de refutar o naturalismo a transpor mais para as hostes celestiais ou de mundo paralelos.

No caso do Islam, como o judaísmo, os povos do deserto sabem que a natureza não é muito confiável, e que ela pode e deve ser submetida ao controle, por uma simples questão de sobrevivência. Logo Deus está fora da natureza.

Isso se reflete sim, na diferença entreos prelúdios de Abdul e Svetlana. Concordo com sua observação. E mesmo com os prelúdios de Eleonora, que como cristã, é de ambiente urbano, senda a cidade uma expressãod a humanidade, que pde ser Caim, o assassino da fraternidade, e por onde veio o Cristo, o redentor da humanidade. A preocupação de Eleonora com a humanidade demasiada percebe que é nessa humanidade que pode-se encontrar Deus. Escândalo e insensatez.

Abs!

Camila Numa disse...

Diego

Acredite se quizer, o FILIPE FEZ A PRIMEIRA PARTE DO SEU PRELÚDIO!!!

Ele está todo preocupado em escrever 10 páginas (e por tanto postar assim 5 textos), mas quer dar continuidade a história e não quer posta ainda. Vou falar com ele pra mostrar logo o préludio.

Ele como editor é mt chato. Vive lendo, relendo, alterando e nunca fica satisfeito. Perfecionista que dói.

Mas acho que todos vão realmente se surpreender...

Camila Numa disse...

Hugão, teu personagem acho estremamente enriqucedor. Admiro como segues a risca a personalidade e os desejos de um bom islamico. Por várias vezes a gente quiz a tua cabeça por causa disso, pois como todo bom islamico, tende a fazer o oposto que os europeus em modo geral faria.
Em relação a escrever, realmente temos que estar inspirados se não se torna algo muito chato e sem sentido.
A ideia da interação do encontro com a Ordem da Razão iria ser bem legal pra nós vermos a sua visão...
Boa escrita!
=*

dklautau disse...

Folgo em saber do notícia! Estamos ansiosos par saber de Heráclito. Tolkien levou 12 anos escrevendo O Senhor dos Anéis e deu no que deu.
Tomara que seja assim! Abs!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Obrigado Camila pelo incentivo...

Diego, muito interessante seu comentário. Não havia associado a idéia de cidade com o fraticídio de Caim. Realmente faz todo sentido em relação à Eleonora.

Gostaria que Pietro, Lee e Aurora se manifestassem sobre essa questão...

Hugo Marcelo

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Mas também podemos considerar que a relação Caim x Abel é o humano que molda o mundo suprimindo o humano que convive harmonicamente com o mundo: Abel era o lavrador, colhia e vivia do que a terra provia, sempre calmo e cálido, meio Alberto Caeiro (rs... Fernando Pessoa é demais!!!).. Já Caim era o construtor, o modificador, aquele que observava e moldava...
Inclusive, é a definição (ou melhor, o paraleloexplícito) da Magicka em Mage: A Magia sem Forma (Verbena e Oradores como exemplo extremos) e Magia com Forma (Herméticos e Ordem da Razão na outra ponta)...

Pelo Mundo das Trevas, Adão e Eva tiveram um Terceiro Filho, Seth, que seria aquele que, junto com Lilith, aprendeu e moldou a Magia, já que Caim não pôde fazê-lo, por ter ficado preso ao sangue como vampiro. Seth seria o "fundador" da Magicka com Forma, enquanto Lilith seria a "fundadora" da Magia sem Forma... Mas isso é outra discussão.

Aos interessados, o livro da White Wolf "Revelations of the Dark Mother" explica um bocado dessa relação...Ainda que mantendo todo o mistério já conhecido pelos que leram coisas do Mundo das Trevas.

Abraços

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Cesar, muito interessante seu ponto de vista... Mas biblicamente Abel era caçador, Caim, sim, era agricultor... A ruptura com o humano que convivia em harmonia com o mundo, acho que é mais adequado para o caso Adão & Eva X Serpente...

Um abraço,

Hugo Marcelo

dklautau disse...

Sim, de fato o Abel era pastor de ovelhas, e não caçador. Gênesis (Bereshit) 4, versículos 1-3. E caim foi agricultor.
Os exegetas costumam classificar a briga pela inveja, porque Abel ferecer a gordura dos rimogênitos do rebanho como oferenda, enquanto Caim ofereceru um sacrifício comum.

A questão aqui é quando Deus erunta para Caim onde estava Abel, e Caim disse que não tinha nada com isso. A falta de responsabilidade (responder por algo) é o crime que Deus proíbe a revela nesse trecho. Daí que a fndação da cidade por Caim, que deixa de ser lvrador da terra e constrói a cidade em, a convivência com os irmãos humanos, por causa da culpa que sentia e uma nova responsabilidade. Porém, existe sempre a marcda na testa de caim, para que todos se lembrem o quanto é frágil a convivência humana, podendo se tranformar em verdadeira guerra.

O mais interessante é que são os filhos de caim que geraram as atividades da pólis (genesis 4, 17-22) como político e juiz, o artista e o artesão.

De fato, na bílbia existe Set, e é dele que vem a descendência real de Adão e Eva, oprque foi o único que manteve os ensinamentos de Deus.

Li o The book of nod, e gostei bastante da relação com Lilith e Caim. Não li the revelations, mas entendo qual a linha argumentativa. De fato, podemos associar a obediência de Set a deus como a manutenção do despertar do conhecimento do árvore do bem e do mal que os dois provaram e que por isso foram expulsos do éden, enquanto caim ficou preso às transformações materiais, humanas e naturais, adormecido por seu próprio pecado.

Abs.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Diego,

Peço desculpas por ter afirmado que Abel era caçador. Uma vez que ele sacrificou uma ovelha, pensei que fosse caçador de ovelhas, e não pastor...

Hugo Marcelo