12 de dezembro de 2010

Cap. 05 - Noite na Kaaba (Parte I)


Mecca…

Como havia sonhado com este momento.  Apesar de distante como uma miragem, já sentia a energia da quintessência que emanava da Kaaba [1].  Por Allah (swt [2]), o poder desta cidade sagrada é impressionante, quase inebriante.  A paz e a esperança que sentia era um sentimento único, inexplicável, como se Allah (swt) fizesse morada em meu coração...
    

        -Podemos ir agora tio Hasan?  –  Precipitou-se Abdul.
-Ainda não, deixe-me fazer minhas orações.  –  Respondi um tanto impaciente.
     
Valendo-me dos meus conhecimentos sobre o "espaço", projeto minha visão para dentro da cidade.  Por entre as ruas e vielas as pessoas caminhavam calmamente, aparentemente nada de anormal...  Todo cuidado é pouco.  A “Ordem da Razão” está a cada dia mais infiltrada nas estruturas da sociedade, inclusive no oriente.  A "Teia da Fé" nos alertou sobre gabrielitas que se infiltraram nas hordas de cruzados e que agora se articulam para dominar Jerusalém.  Até mesmo alguns expoentes cientistas islâmicos se tornaram acólicos de artesãos.  Renomados “scholars”, estudiosos da matemática e trigonometria, agora se associam à maçônicos.  Como uma erva da ninha, dedaleanos e seus aliados proliferam desrespeitosamente.

Mas neste momento minhas preocupações são outras.  Temos inimigos ainda mais ardilosos, abomináveis criaturas da noite, seres amaldiçoados, sem esperança, e muito perigosos.  Abro meu terceiro olho para ver a áurea das pessoas que transitam pela cidade.  Nem mesmo os adormecidos estão indiferentes ao poder da Kaaba.  Acho que nunca vi áureas de um branco tão esplêndido, encandeante, ou de um azul tão puro.  Almas incendiadas pela beleza de Allah (swt).  Observo o jovem Abdul, sua áurea resplandece a pureza de seu coração, mas vejo como que pequenos pontos cintilantes que reluzem, que dançam e celebram a maravilha da criação de Allah (swt).  Seria Abdul um mago a ser despertado?  Bem... Deixo isso aos cuidados de Allah (swt), que sua vontade suprema seja feita.
  
Infelizmente não tenho mais tempo, preciso me concentrar na minha missão.  Apesar de ter a convicção de que deveria conduzir Abdul à Mecca, intuição confirmada por suas visões, uma clara indicação da vontade de Allah (swt), me preocupo com sua segurança...  Que Allah (swt) nos proteja e me dê forças para cumprir com seus desígnios.

-“Eu vim para secar os que estão molhados e incendiar os que estão secos”.  –  Recitou a meia voz.
-O que disseste tio Hasan?
-Eu disse: vamos sobrinho, pois o tempo urge.   Exclamou enquanto se levantava e iniciava marcha rumo a Mecca.
-Por que?
-Temos que estar na Kaaba ao por do sol.
Após alguns minutos de caminhada em silêncio, perguntou Abdul:
-Tio Hasan, por que o senhor abandonou a Jihad?
Ele parou por alguns instantes, olhou em direção do horizonte, voltou-se para mim, sorriu enigmaticamente e respondeu:
-Esta é uma pergunta importante...  Eu estava nos arredores de Jerusalém, os cruzados estavam em vantagem, a derrota era iminente.  Nossos generais ordenaram uma retirada, mas eu me recusei.  Preferiria morrer a admitir a possibilidade de recuar, confundia meu orgulho com a vontade de Allah (swt).  Fui atingido por uma lança que transfixou meu tórax direito, veja...  –  Falava enquanto mostrava as cicatrizes correspondentes ao orifício de entrada e saída da arma branca.
-Allah (swt)!  –  Exclamou Abdul.
-A morte era iminente.  Comecei a orar, invocando Allah (swt) para que perdoasse meus pecados e me acolhesse no Jannah [3], se fosse de sua vontade.  Estava desfalecendo, minha visão estava turva, quando vi um ponto brilhante descendo do céu.  Foi se aproximando, e pude ver um homem alto, forte, vestido com uma túnica impecavelmente branca.  Com voz doce, porém incisiva, me disse “Assalam-u-Alaikum [4], fiel servo de Allah (swt).  Al Rahman [5] se compadeceu de ti e prolongará seus dias na terra e, para que o sirvas de forma mais perfeita, te revelará a verdade”.
-Bismillah [6].  –  Abdul estava atônito.
-Então ele apontou sua espada para mim e um clarão me ofuscou.  Quando abri os olhos eu estava à beira de um oásis, ele não estava mais lá, mas ao meu lado um homem magro, sentado, cantava uma Dhirk, frases de adoração à Allah (swt).  Parecia estar “fora de si”, como que embriagado...


(Dhirk entoada pelo místico)

       -O que ele fez?
-Eu comecei a chamá-lo, implorar por ajuda, mas ele não se movia, estava como que em transe, não parecia me ouvir.
-E então tio Hasan, o que aconteceu?
-Uma paz muito grande invadiu meu coração e comecei a também orar com a música, acho que foi como se entrássemos em sintonia.  Quando acabou a música, após alguns minutos de silêncio, ele ergueu a cabeça, sorriu para mim, fez um movimento com a mão e a lança começou a mudar de cor, foi tornando-se como que translúcida, senti um frio intenso e a lança transformou-se em água que caiu sobre o meu corpo, me refrescando do calor do deserto.
-E o seu ferimento?
-Completamente curado, restava apenas estas duas pequenas cicatrizes que ainda carrego.
-Bismillah, um milagre.  Bismillah!  –  Abdul estava maravilhado.
-Ele então me disse:
     
Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.
Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

-Quem és tu?  Perguntei-lhe e tive como resposta:
     
Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol. [7]

-E quem era este homem?  –  Interrogou Abdul.
-Seu nome era Khajah Abdullah Ansari, um dervixe [8], um mestre Sufi que me apresentou a trilha mística do Sufismo.
-O que seria “Sufismo”, tio Hasan?
-Sufismo é um caminho místico, ou seja, valoriza a experiência de Allah (swt), como perceber-se na sua presença e do amor por e de Allah (swt).
-Acho que não o compreendo tio.  Abandonaste o Islã?
-Não Abdul.  O Sufismo é o braço místico do Islã, chamado esoterismo.
-Nossa!!  – Exclamou Abdul vislumbrado.
    
A inocência de Abdul me comovia.  Era impressionante sua sede pela verdade e como estava aberto a “novas realidades”, mas, ainda assim, estava apreensivo por sua reação quando visitássemos a Kaaba.  Ficará aterrorizado ou possuído pela ira?  Será que me perdoará?  Mas agora era tarde, estávamos a poucos metros de Mecca e seus incontáveis peregrinos. Separar-nos seria muito perigoso para ele e já podíamos avistar a Kaaba em toda sua glória.  Que Allah (swt) nos acompanhe e nos guie...

___________________________________
[1] Kaaba é uma construção reverenciada pelos muçulmanos, considerado o local mais sagrado do mundo. É uma construção cúbica de aproximadamente 15m, coberto por uma manta negra. É o centro das peregrinações e é para onde os muçulmanos se voltam quando oram.
    
[2] Subhanahu wa ta'ala: "glorioso e exaltado é Ele".
     
[3] Paraíso islâmico.
     
[4] Expressão de língua árabe de cumprimento que significa “Que a paz esteja contigo”, em resposta deve-se dizer Waalaikum salaam, que quer dizer "Que a paz esteja contigo também".
    
[5] Um dos "99 atributos de Allah" que significa "O Compassivo; O Beneficente".
    
[6] é uma fórmula em árabe usada em variados contextos da vida de um muçulmano. O texto em árabe da bismillah é: بسم الله الرحمن الرحيم (transliteração: bismi-llāhi r-raḥmāni r-raḥīm), significa "Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso". A palavra bismillah tem a sua origem nas quatro primeiras consoantes da fórmula.
    
[7] Os dois poemas são de autoria de Jalal ad-Din Muhammad Rumi, fundador do sufismo.
      
[8] Um monge islâmico, normalmente sobrevivem de esmolas e doações.


Referência bibliográfica:
Wikipédia.
 

4 comentários:

dklautau disse...

Dr. Hugo. Essa é uma das melhores postagens que já li. Fala pela completude, diversificação multimídia (mandou bem na música, e pelo nítido aprofundamento no universo de Mage Sorceres Crusade.
Foi digno de Meca. Estou impressionado com os nomes, as citações em árabe (até o bismillah do ishmael apareceu!!!).

Parabéns!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Obrigado pelo comentário, fico feliz que tenha gostado do poster.

Estava ficando uma postagem um pouco grande, por isso separei em parte 1 e 2. A parte dois vou tentar me concentrar nestes pontos que vc gostou... Hehehehe

Hugo Marcelo

Fabi Dias disse...

Aeee Hugão,

Isso vai dar um livro!!! rs....

Quase entrei em transe, lendo e ouvindo o mantra!!!! hehehe...

Bjos

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Fabiana,

Obrigado!!
O que vc chama de entrar em transe, os Sufis chamam de "intoxicados por Deus". Hehehe

Hugo Marcelo