13 de setembro de 2010

Svetlana Olen ¥ Cap. 1 - Memória dos sentidos

¥ Svetlana Olen ¥ 
Cap. 1 - Memória dos sentidos

* Ainda me lembro daquela noite banhada pela luz alva da lua cheia de março. Pude sentir o sofrimento que causava em minha querida mãe, acompanhada por lágrimas e batimentos rápidos em seu peito, cheio de preocupações. Era fácil de ouvir os passos pesados de meu amado pai no corredor ao lado, mesmo com sua voz grave urrando para todos o ajudarem. Disto me lembro muito bem...


Uma semana antes, quando a noite ainda não estava assim tão clara, minha doce mãe embalava a escuridão que havia entorno a mim, com o seu cantar. Minha irmã, que estava imóvel ao meu lado, parecia ignorar a melodia que me envolvia. Logo depois, chegara meu pai para acompanhá-la, e que de certa forma, nos acariciava com suas mãos quentes. De vez em quando os dois riam devidas suas desafinações em tons mais altos.



E foi com um grande agudo e suspiro que escutei minha mãe pela última vez. O som que logo surgiu, não foi o de meu pai, já que estava estupefato com o que havia acontecido e lavado em lágrimas mais salgadas que um dia sonhara ter, mas a do som que o ar fazia ao ecoar nas minhas cordas vocais pela primeira vez.


Foi neste mesmo choro que senti uma tristeza enorme pela primeira vez. Não sei bem como, mas ainda lembro daquela senhora, com cabelos longos e tão magra quanto a uma vassoura, me olhar firmemente e sorrir. Logo em seguida, virou rapidamente o rosto e pegando na barriga já sem vida de minha mãe, empurrou em direção a suas pernas, como se soubesse que ainda havia algo. Minha pequena irmã, ainda mais alva que a lua neste dia, nascera morta com a boca e os olhos arroxeados.


Em uma só noite, meu pai perdera a mulher de sua alma, mas também uma segunda filha que não sonhava em ter. Lembro ainda de seu isolamento no quarto, perto de mim, jurando me proteger, mas inconsolado e ainda perdido.


Recordo-me também que no dia seguinte enquanto uma criada italiana, que meu pai havia trazido de uma de suas viagens de negocio, me dava banho, comentou da tragédia que havia acontecido com uma criada lituana mais nova que me esperava com uma toalha nas mãos: “E sì, la mama non resistiu, já estava muito fraquinha... poverina! E La piccolina? Quem poderia saber que havia outra? Quando chamaram Signora Ausra já era tarde. Foi ela quem descobriu a existência da segunda, mas que nascera morta. Pelo tempo, havia engolido fezes e não suportara a ausência de ar... Silenzio adesso! Signore Olen sta vindo...”. Foi neste silencio que passei toda a minha infância na cidade onde nasci: Kupala Alka.


Ainda pequena, sentia uma necessidade de fugir para os bosques que rodeavam nosso domínio. Era sempre meu pai que me achava quando não estava viajando. Era visível e caloroso seu sorriso ao meu encontrar quase sempre sentada perto de um córrego jogando pedrinhas ou fazendo desenhos na água com galhos que pegava em meu caminho. Seu amor por mim era tão grandioso que procurava não me culpar pela morte de minha mãe e de minha irmã. Apesar de nunca falar sobre elas com meu pai, sua dor podia ser sentida por todos em sua volta, já que todos diziam que o sofrimento da morte delas estava representado em meu próprio rosto por ser uma cópia presente de minha mãe em sua vida...

Em uma tarde de inverno, meu pai não veio ao meu encontro. Foi aí que a vi pela primeira vez... *

Domínio Família Olen (1389)

5 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Parabéns pelo texto, muito legal...

Hugo Marcelo

Camila Thiemy Dias Numazawa disse...

Obrigada pelo carinho!
Beijocas!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Adorei sua casa... Hehehe

Hugo Marcelo

Camila Thiemy Dias Numazawa disse...

Pena que daqui a uns anos ela vai ser incendiada...
=~

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Bom... Pelo menos serviu para o seu propósito...Hehe

Hugo Marcelo