30 de setembro de 2010

Prelúdio de Abdul Haseeb Muhammad Abn Abdulaziz: Cap. 04 - Noite no Deserto

     
“Despedida” sempre é um momento difícil. No meu íntimo, sabia que estava partindo para sempre. Mais do que renunciar à família e aos amigos, era a ruptura com o meio de vida que havia aprendido com meu povo: viver um dia de cada vez procurando água, pastagens, sempre confiante na generosidade de Allah (swt) [1] que provem o pão de cada dia. A maior felicidade que experimentara era encontrar um oásis. Esse era o meu mundo até então, muito simples, mas eu amava aquela vida que agora ficava para trás. 

Como reencontraria minha família? Eram nômades a vagar pelo deserto. Isso seria praticamente impossível. Mas estava decidido, tinha que ser forte e seguir o meu caminho...

     -Tio Hasan, acha mesmo prudente sairmos ao anoitecer?
     -Sim, à noite a temperatura é mais amena, é muito mais agradável andar sob o luar, não acha?
     -Caminhar? Vamos caminhando até Mecca?
     -Sim Abdul.
     -Isso é impossível, morreremos no deserto. – Afirmei em tom de desespero.
     -Confie em mim.
     -Não seria melhor voltarmos e pedirmos dois camelos?
     -Camelos? Onde deixaríamos esses animais em Mecca? Quem cuidaria deles? – Riu-se de mim.
     -Quantas luas caminharemos?
     -Chegaremos em Mecca mais rápido do que você imagina.
     -Como assim?
     -Abdul, não se preocupe com os detalhes. Deixe tudo comigo.
     -Detalhes?! Nós vamos nos perder no deserto e morrer de sede.
     -Claro que não. Não confias em Allah (swt)?
     -Sim, mas...
     -Então não confias em mim...
     -Claro que confio tio. Mas... Apenas não me parece prudente. – Tio Hasan sorria enigmaticamente.
     
Aos poucos íamos nos distanciando do acampamento, do qual se via apenas um ponto brilhante no horizonte, correspondente à fogueira que os aqueciam, mais alguns quilômetros deserto adentro e não se via mais nada... Um aperto veio em meu peito. Teria eu tomado a decisão certa? Fui interrompido quando meu tio Hasan bateu no meu ombro e me disse:
   
     -Abdul, pare de sonhar acordado. Já são 03:00 da manhã. Vamos montar acampamento aqui e poderemos dormir. – Sorria amavelmente enquanto eu respondia afirmativamente com a cabeça.
     -Boa noite Abdul.
     -Boa noite tio Hasan.
    
Demorei a pegar no sono. Fiquei a observar as estrelas e orando para que Allah (swt) nos guiasse. Com pouca água e comida, sem camelos, viajar assim pelo deserto é muito arriscado. Naquela noite tive um sonho muito estranho... Sonhei que estava em um lugar sombrio, às margens de um rio de águas caudalosas. Sentia sede, o cheiro de enxofre era sufocante. Estava mais quente que o sol do meio dia, o céu estava encoberto por nuvens sombrias de cor amarronzada. Era um cenário aterrorizador.
    
De repente, ouvi um zumbido ensurdecedor, era um enxame de vespas gigantes que vinha em minha direção. Então eu corri, corria desesperadamente em direção ao horizonte. Ao longe vi uma estrela cadente, tão brilhante que mal podia olhar diretamente para ela. Ao se chocar com o chão, ouviu-se um grande estrondo e formou-se no céu um desenho geométrico, como uma mandala. 
      

       
As vespas então se dispersaram, pareciam assustadas.  Nesse momento pude ver surgindo no horizonte um homem com uma túnica branca, estava com um sorriso acolhedor. Ele se aproximava de mim quando subitamente fui arrebatado aos céus. Estava sentado sobre um cavalo alado, voando tão rápido que mal conseguia me segurar na sua clina... Era Ele, al-Buraq [2] que veio me buscar. Nunca me senti tão livre como naquele momento. E voávamos cada vez mais alto, aquele homem ria às gargalhadas e uma alegria imensa brotava em meu coração. Quando parecia que iríamos tocar o céu, atravessar aquelas nuvens sombrias, acordei. Confesso que fiquei meio decepcionado... Tio Hasan percebeu meu descontentamento.
     
     -Que cara é essa sobrinho?
     -Tio, tive um sonho que você não vai acreditar.
     -Venha tomar um chá enquanto me conta seu sonho...
   
Mas quando olhei para o horizonte não pude acreditar, minhas mãos ficaram úmidas, minha boca seca, minhas pernas tremiam. Dei um passo para trás, pisei em falso e caí sentado na areia.
    
     -O que foi Abdul, parece que viu um Djinn.
     -O que é aquilo no horizonte? Que cidade é aquela?
     -Abdul, é a cidade de “Mecca”. – Respondeu com extrema naturalidade.
     -Isso é impossível! – Retruquei – Mecca estava a centenas de quilômetros do nosso acampamento... De camelo levaria várias semanas!
       
Olhava pro meu tio que começou a rir feito uma criança. E neste momento enquanto ele ria, ria, ria... No seu pescoço, observei a presença de uma jóia, um colar que não havia percebido antes. Um colar, com um medalhão no formato de um desenho geométrico, uma mandala idêntica a que vi no meu sonho da noite anterior.
     
        
     
Que segredos meu tio Hasan escondia e o que será que encontraria em Mecca? Começava a perceber que a Hajj [3] é muito mais do que uma simples visita à Kaaba... [4]




    
   
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[1] Subhanahu wa ta’ala: “glorioso e exaltado é Ele”.
   
[2] Al-Buraq (em árabe “relâmpago”, ou “de relâmpago”) é um animal mítico semelhante a um pequeno cavalo alado com cabeça de mulher com uma coroa e longas orelhas. De acordo com a tradição islâmica foi o próprio anjo Gabriel quem trouxe este animal até o profeta Muhammad, sendo seu “transporte” na “Jornada Noturna”.
   
[3] Peregrinação a Mecca, obrigatório pelo menos uma vez na vida para todos que gozem de boa saúde e meios financeiros para tal.

[4] Kaaba é uma construção reverenciada pelos muçulmanos, considerado o local mais sagrado do mundo. É uma construção cúbica de aproximadamente 15m, coberto por uma manta negra. É o centro das peregrinações e é para onde os muçulmanos se voltam quando oram.
    
OBS: para melhor compreensão do sonho de Abdul visite a postagem Vestíbulo do Inferno.
    
   

3 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Obrigado Diego,

Confesso que estava meio sem imagiação e tentei "redimir Abdul" do erro que cometeu no episódio anterior...

Um grande abraço,

Hugo Marcelo

Camila Thiemy Dias Numazawa disse...

Poxa Hugo, fiquei triste mesmo...
A história dele hj me tocou mt.
Linda imagem!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Camila,

Fico feliz que tenha gostado.
Provavelmente todo emigrante entende Abdul...

Hugo Marcelo